Resenha: An Ordinary Man – Paul Rusesabagina – Um homem qualquer e uma reflexão sobre “negócios sociais”

an ordinary man paul rusesabagina

Bem que eu tentei escapar de falar do genocídio durante a minha curta passagem por Ruanda. Tirando a experiência com Agohozo-Shalom, nenhum dos meus planos propositalmente incluía esta discussão. Claro, visitei o memorial em Kigali – muito bem organizado por sinal – e diversos outros espaços que serviram de palco para algum tipo de atrocidade durante os dias em que Ruanda caiu em momentânea insanidade. Não foi difícil encontrar tais lugares.

Foi difícil manter meu desgastado grifa texto e meu mal apontado lápis distantes das recém compradas páginas do “An Ordinary Man” (sem tradução para o português ainda! – Absurdo), de Paul Rusesabagina. Não rabisquei o livro pelos dados ou contextualizações muito bem descritas, mas o fiz pelos excelentes parágrafos de sinceridade e reflexão de um homem que acompanhou de perto – muito mais perto do que ele gostaria – mais uma das nossas falhas como sociedade.

Mais uma vez, foi um livro o fator que despertou minha atenção. Um livro qualquer, de um homem qualquer. O autor é simplesmente o homem cuja função durante o genocídio não poderia ser mais conhecida: gerente do hotel Des Mille Colines, o estabelecimento por trás do famoso filme Hotel Ruanda. Mais do que uma história inacreditável, o livro apresenta um homem comum, ordinário como ele mesmo se apresenta, porém de rara sabedoria. Um livro comprado à toa, sem expectativa, mas devorado em uma viagem de ônibus.

Dois fatores são destacados no livro e merecem a devida atenção. Primeiro, o autor enfatiza a causa principal do genocídio: “o mundo inteiro ao meu redor ficou louco. E o que causou tudo isso? Muito simples: Palavras”. Palavras estas que também contribuem para entender o segundo destaque do autor, no caso, em relação ao que contribuiu para que ele sobrevivesse – e protegesse 1268 pessoas em seu hotel: “Não sou nada mais do que um gerente de hotel, treinado para negociar contratos e encarregado de fornecer abrigo aqueles que solicitam. Meu trabalho em nada mudou durante o genocídio”

Em um relato denso e sincero, Rusesabagina descreve os fatos que extraíram mais de 800 mil vidas entre os dias 6 de abril e 4 de julho de 1994. Da história pessoal de sua família e amigos, reunidos em um quarto do hotel para juntos prometerem cuidar uns dos filhos dos outros caso viessem a ser assassinados até duras críticas a atuação da ONU e praticamente todas as outras agências internacionais “atuantes” em Ruanda, o livro é uma aula de humanismo e uma profunda reflexão sobre a maneira com que lidamos com nossos problemas contemporâneos.

“Uma triste verdade da natureza humana é a dificuldade em se preocupar com pessoas quando elas são apenas abstrações, quando não é com você ou alguém próximo a você. A menos que a comunidade internacional possa parar de encontrar maneiras de estremecer na face desta monstruosa ameaça à humanidade, estas palavras “nunca mais” vão continuar sendo uma das mais abusadas frases, e uma das grandes mentiras de nosso tempo”

O ponto que mais me encantou no relato é a constante fuga do heroísmo e a simplificação de suas atitudes como apenas “parte de seu trabalho” e “fazendo o que qualquer um faria para manter-se são”. É uma aula sobre a importância de fazer o bem, independentemente da sua área de atuação. No livro, Paul sugere “que aquele que não ouve seu próprio pai não adquire a sabedoria de seu avô” e assim lembro o que meu pai sempre me disse (baseado no que meu avô lhe disse): “Não importa o que você for fazer, faça da melhor maneira possível. Seja o melhor lixeiro da cidade, se este for o caso”.

E assim, durante os 100 dias do mais rápido, mais eficaz e mais violento genocídio dos nossos tempos, o gerente de um hotel estava empenhado em manter sua sanidade através do bom trabalho dentro do que lhe convinha. Afinal, da mesma forma em que afirma que “as palavras são a mais eficiente arma de morte no arsenal humano, mas podem também ser uma poderosa ferramenta da vida”, conclui com um bonito pensamento: “a arma mais poderosa de um individuo é a teimosia em acreditar no triunfo de uma decência comum”.

E para o futuro, dentro da nossa constante busca por respostas sobre como impedir que tragédias como essa ocorram novamente, uma simples lição sobre o que cada um de nós pode fazer: “Aonde quer que a temporada de assassinatos comece novamente e as pessoas se tornem estranhas a si mesmas e a seus vizinhos, minha esperança é que ainda existiram homens comuns que dirão um ‘não’ quieto e abrirão os quartos de hóspedes”.

Assim, uma pequena reflexão: ao invés de continuarmos criando novas terminologias para profissões tradicionais, como negócios sociais, trabalho humanitário ou investimentos de impacto social, basta que façamos o que deve ser feito, em qualquer espaço, com esta teimosia em manter certa decência comum a todas as nossas ações. Que façamos negócios, e que eles sejam obviamente sociais. Que trabalhemos em qualquer área, e que o resultado seja uma melhoria humanitária. E que nossos investimentos – financeiros ou de tempo – sejam sempre impactantes beneficamente para o coletivo.
(e eu fazendo um mochilão e chamando ele de social, não é uma dessas contradições?)

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