6 ideias para uma transição de carreira “para o social”

Primeiro queria dizer duas coisas importantes sobre esse texto:
1) ele reflete a minha humilde opinião lidando com várias pessoas que me abordaram nesses últimos três anos e
2) eu não acredito em processos de transição “express” ou fórmulas mágicas que fazem você automaticamente estar pronto para atuar em outra área, principalmente uma completa e ampla como a ” área social”.

Eu acredito que há uma certa crise de “essência” nos empreendimentos atualmente, sejam eles assumidamente direcionados para benefícios sociais ou não. Assim, penso que para uma transição de carreira completa e real, a questão da essência deve aparecer em dois momentos:
1) A descoberta da sua essência. Quais são seus talentos, seus aprendizados, seus ideais, suas habilidades, suas vontades, suas intenções e sua forma de fazer as coisas;
2) A descoberta e execução da essência do seu empreendimento. Nada de superficialidade, de falsas imagens ou GreenSocial Wash 😉 Se é para fazer, é para fazer direito, de forma integral e aprofundada. Sou daqueles que acredita que mais importante que um bom “o quê”, é um excelente “como” e um bonito “por quê” que vão fazer a diferença no impacto positivo que você pode causar – em você e nos outros.

Premissas:

* Você está fazendo esta busca por uma transição pois estava insatisfeito com uma série de coisas no seu emprego ou ocupação anterior
* Você percebeu que depois de muito tempo fazendo a mesma coisa era hora de procurar novos desafios, mais alinhados com o seu propósito – que você nem tem certeza ainda qual é – e que façam um bem maior para esse nosso mundão
* Você acredita que pode ser mais feliz e melhor aproveitado pela sociedade fazendo o que sabe, casado com o que gosta e usufruindo do tempo e dinheiro da maneira que você acredita serem mais corretos.
* Você esta em crise ou à beira de surtar sobre o que posso fazer para encontrar sentido para a vida ou, pelo menos, tirar aquele plano B da gaveta.

Dito isso, eis o que eu venho propondo para as várias pessoas que me procuram. Eis minha sugestão de passo a passo (obviamente, com um trabalho mais aprofundado, varia de pessoa para pessoa):

1) Pesquisa “na boa”: Para começar, uma boa pesquisada no Google em temas chave que sempre te interessaram podem ser um passo interessante para abrir alguns novos canais. Se a sua ideia sempre foi trabalhar com educação há 10 anos, saiba que muita coisa aconteceu nesta área – assim como praticamente todas as outras – e novas oportunidades de envolvimento podem estar disponíveis. Foi só você que parou de procurar 😉 Ninguém precisa saber o que você esta pesquisando, o que evita julgamentos e olhares atravessados, comentários desmotivadores e etc. Dá para fazer essa etapa enquanto você ainda está no trabalho ou no seu tempo livre.

2) Abrir o jogo: um passo simples, mas super importante – e difícil – é começar a abrir o jogo. Simplesmente, aos poucos, dizer a si próprio e alguns familiares e amigos próximos que você está cogitando a possibilidade de talvez iniciar um processo de transição, ou de buscar outras ideiais e oportunidades de coisas para fazer. Bem leve, sem pressão, sem expectativas. Apenas sondando para sentir como isso soa interna e externamente. Você vai perceber que quanto mais específico você começar a ser mais as pessoas vão poder começar a opinar e fazer pequenas sugestões sobre coisas para você ir atrás. “Ah, tem um primo de um amigo que eu ouvi que esta envolvido com alguma coisa nessa linha”, “um cara do trabalho comentou de um projeto assim assim”, “eu vi alguma coisa num site sobre uma coisa relacionada a este assunto…”. Esse é o momento de abrir bem os ouvidos e anotar indicações possíveis, lidando da melhor maneira possível com comentários desanimadores (na maior parte do tempo, é você que vai escolher para quem contar e como, o que ajuda no tipo de feedback que vai receber)

3) cafés com pessoas chave –> amigos ou conhecidos estereotipados:
Pra mim, esta é a fase mais interessante e com maior potencial de crescimento. Chega de pesquisa “seca” e ficar abrindo o jogo sem direção. A hora agora é procurar pessoas com quem uma boa conversa pode se transformar em potenciais caminhos. Eu sempre valorizei muito a oportunidade de conversas com pessoas de áreas diferentes da minha e aprender sobre novos mundo, diferentes formas de pensar e de agir. Esse momento de buscar o próprio proposito ou de empreender um sonho é uma desculpa excelente, por si só, para abrir portas e mais portas e conhecer pessoas com diferentes trajetórias. Eu falo em amigos ou conhecidos estereotipados porque acredito que conhecemos muito pouco das outras pessoas. Assim, aquele amigo “que trabalha com educação”, o conhecido “ongueiro”, o “primo de alguém que já empreendeu” podem a partir de agora virar histórias mais completas e ricas, das quais vocês pode extrair muito aprendizado e aumentar seu entendimento sobre um novo campo.
Aqui, mesmo uma conversa que, no fim das contas, não teve nada a ver, serve como exemplo do que não faz sentido nesse momento. Uma vez me disseram “você nunca será completamente inútil, sempre poderá servir de mal exemplo para alguém”.

4) cafés com indicações e pessoas que atuam na área já especifica:
Após a abordagem ampla, não direcionada e super abrangente, é hora de começar a focar um pouco mais nos temas que apresentam melhores expectativas. Assim, é hora de começar a conversar com gente que tem bagagem nas suas áreas de interesse. Pode ser alguém que atua em organizações das quais você se identifica ou que já passaram por situações nas quais você gostaria de ter uma melhor noção. Penso que este é o momento da cara de pau, de ir atrás das pessoas – independente delas serem “fora do seu alcance” – até porque você não tem como saber isso de antemão. A minha experiência com “tomar cafés por ai” me mostra como há abertura das pessoas quando você esta genuinamente interessado em ouvir suas histórias.
Digamos que no mundo em que vivemos atualmente, com todo esse volume de informação e exposição, acabamos não explorando muito a fundo quase nada. Assim, não temos muitos espaços para contar nossa história como um todo, selecionando ativamente o que queremos que o outro saiba. Entenda que o convite para ouvir alguém é como dar a oportunidade rara para que esta pessoa conte partes da sua história e trajetória que não ganham espaço e/ou destaque no dia a dia.
Um exemplo pessoal: algumas vezes fui entrevistado para temas ultra específicos sobre a minha experiência com o Mochila Social. Entre elas, uma consultoria queria mais informações sobre um aplicativo de pagamentos via celular muito usado no Quênia e Tanzânia que eu tinha pesquisado, usado e escrito sobre. Fui convidado para falar das funcionalidades, como as pessoas usavam o aplicativo, que tipo de impressões eu tive etc. Falei por mais de 3 horas. Ninguém nuca tinha se interessado pelo tema tanto quanto eu mesmo e poder passar essa vivência para outro interessado foi sensacional.
Uma estratégia para conseguir alguns contatos específicos na fase anterior é chamada de “pé-de- galinha”, na qual a cada conversa/café você pede para que a pessoa indique outras três pessoas com as quais seria interessante, na perspectiva dela, você conversar em seguida. Normalmente, sem nem ao menos pedir esse fenômeno vai acontecer naturalmente.

5) Vivência em organizações sociais – voluntariado
É hora de ir pra rua. Não tenho dúvidas sobre a importância de viver as experiências por si próprio. A opinião e vivência dos outros é um excelente direcionador, mas é somente quando você vivenciar as coisas por você mesmo é que vai conseguir sentir verdadeiramente o impacto dessa nova atividade e como ela ressoa em você. A boa notícia é que há uma infinidade de possibilidades para você se envolver com diferentes organizações – dentro e fora do Brasil. Não há uma ciência que direcione você às melhores e mais organizadas experiências, mas você pode contar com a sua rede para oferecer boas sugestões de por onde começar. A maioria das organizações possui algum tipo de canal para absorver voluntários e pessoas interessadas em saber mais sobre o trabalho delas. Eu recomendo que a vivência voluntária não seja de um dia só ou esporádica: a melhor maneira de conhecer o dia a dia de qualquer organização é… participar de seu dia a dia 😉
Existem plataformas que conectam pessoas que querem se voluntariar organizações sociais precisando de gente, mas eu recomendo fortemente que você faça ativamente uma pesquisa na Internet e entre seus amigos, conhecidos e “cafés” para encontrar uma boa primeira experiência. Se você quiser ajuda, entre em contato por meio do “Formulário de encaminhamento”, é uma experiência piloto para tentar ajudar com esse processo de transição.

Lembrando que antes de se dedicar de corpo e alma a uma causa ou a causar impacto social no mundo, é de bom tom ouvir o que as pessoas que atuam com estas questões há bastante tempo têm a dizer e a mostrar. Impacto social pode ser positivo ou negativo, tanto para você quanto para aqueles que você pretende “ajudar”. Não basta apenas se conectar com seu próprio propósito sem conquistar a habilidade de se posicionar em um contexto e entender o que as outras pessoas aos seu redor querem e/ou precisam.

6) Experiência profissional – imersão ou empreender na área.
Como o término de um namoro, a primeira experiência pós mudança de emprego/carreira será de experimentação e provavelmente não será perfeita, mas cumprirá uma série de importantes papéis. A ideia é ao longo do tempo buscar de volta um equilíbrio. Explico: é comum as pessoas que abandonam carreiras no mundo corporativo desenvolverem uma série de aversões a padrões cotidianos do corporativo e buscarem agora “tudo diferente”. Acredito que esse é um período importante, mas é fundamental aos poucos entender o que exatamente incomodava e o que não há problema nenhum em manter, mudando apenas os “o quês” e os “comos”. Se a questão eram os horários inflexiveis, é comum buscar na nova experiência “não ter horários”, até o ponto de encontrar o equilíbrio e entender que, as vezes, ter horários pré-estabelecidos pode ajudar com a produtividade. A vestimenta formal incomodava? Andar de bermudas ou com todo o corpo aparecendo vai ser bom e importante por um período até chegar uma reunião ou evento mais formal e você passar alguma vergonha, ou mesmo o inverno: tudo bem usar calças compridas, né?
Se o seu perfil for mais empreendedor ou você descobrir que neste novo mundo com o qual quer se envolver sua ideia ainda não existe – ou pelo menos não da forma como você imagina – talvez seja hora de botar a mão na massa e desenvolver você mesmo esse projeto. O caminho para empreender algo com propósito e/ou impacto social tem desafios tradicionais e também específicos, mas este é um outro assunto por inteiro, que extrapola a questão da transição e se enquadra como um todo na questão do empreendedorismo.
Se você chegou até este ponto convencido de que empreender é o caminho, acredito então que é hora de arregaçar as mangas e começar.

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