#Resenha: Small Change: por que os negócios não vão mudar o mundo – Michael Edwards

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Por quê os negócios não vão salvar o mundo. Com essa premissa, Michael Edwards, ex-diretor da Ford Foundation escreve um livro inteiro recheado de argumentos embasados e bem estruturados que teve pouca visibilidade e nem chegou a ter uma versão traduzida para o português. Se estamos falando em “mudar o mundo e ganhar dinheiro com isso” deveria ser importante trazer à discussão também os contrapontos e opiniões desfavoráveis a este forte movimento apelidado de “Philanthrocapitalism” ou, Filantrocapitalismo em tradução livre.

Edwards abre o livro descrevendo um destes momentos em que você se encontra numa encruzilhada e de repente enxerga algo quando menos espera. Ele trabalhava em Manhattan como um dos 6 diretores da For Foundation:
“Como sempre, metade da minha caixa de e-mails estava repleta de propagandas de livros, conferências e consultores prometendo resolver os problemas da sociedade simplesmente trazendo a mágica do Mercado para as organizações sem fins lucrativos e a Filantropia – os reis do universo, parecia, também queriam ser os salvadores do mundo – e a outra metade lotada de reclamações daqueles que estavam vivenciando as consequências negativas de estar envolvido com quem estava fazendo exatamente isso. Entre os da segunda metade, estavam organizações sem fins lucrativos que não conseguiam apoio pois sua atuação não gerava um “retorno social do investimento*”, grupos comunitários forçados a competir uns com os outros por recursos ao invés de serem estimulados a colaborarem por uma causa comum, funcionários de fundações preocupados com a contratação de executivos chefes vindos do Mercado sem nenhuma experiência com filantropia ou qualquer outro trabalho relacionado com transformação social, e ativistas que que se sentiram preteridos por uma nova geração de ‘Bons Samaritanos’ que pararam para calcular quanto dinheiro eles iriam fazer antes de decidir se querem ou não ajudar”
Está discussão é extremamente importante no atual contexto em que o social se torna “hype” ou moda, e fazer o bem pode se transformar em algo imposto unilateralmente, com pouco ou nenhum embasamento e um simples chamado egocêntrico de alguém frustrado ou procurando oportunidades de atender apenas ao próprio propósito. Vale a fala de Michael Edwards no prefácio:
“Eu não quero que o Mercado e os super ricos abandonem sua consciência social, mas eu sim quero que eles desenvolvam mais humildade e apreciação pela complexidade da tarefa que se estende ao usar o pensamento de negócios para a transformação social”
O livro baseia-se em 4 pilares expostos ao longo do discurso.

1) Nem o Filantrocapitalismo nem qualquer outra abordagem de transformação social é monolítica. Portanto, ao invés de enfocar soluções ao estilo “bala de prata” e decidir por uma abordagem OU outra, é mais interessante enfocar aonde o pensamento de negócios pode alavancar transformação social e aonde não pode, separando o uso de ferramentas utilizadas no mundo dos negócios de sua ideologia de mercado.
2) A moda (hype) que circunda o Filantrocapitalismo é muito maior do que a real habilidade de entrega de resultados pelo pensamento de negócios. Há pouca evidência de que esta abordagem seja melhor na redução da Pobreza e injustiça do que a atuação de governos, fundações e a sociedade civil organizada que vêm trabalhando de forma menos chamativa por uma geração ou mais.
3) Dentre as razões para resultados pouco expressivos, um parece especialmente importante: os conflitos e “trade-offs” que existem entre o pensamento de negócios e os mecanismos de Mercado de um lado e a sociedade civil e transformação social de outro. Pode-se dizer que algumas áreas da vida sempre foram deliberadamente protegidas dos cálculos vazios da competição exacerbada, preço, lucro e custos – como nossas famílias e associações comunitárias – mas na pressa de privatizar e comercializar o “social”, há um perigo de que estas barreiras de proteção sejam completamente esquecidas.
4) A crescente concentração de riqueza e poder entre os Filantrocapitalistas não é saudável para a democracia. Por que deveriam os ricos e famosos decidir como escolas serão reformadas, ou que tipos de remédio serão ofertados a preços acessíveis aos mais pobres ou quais grupos de ação social deveriam receber recursos para seu trabalho?

A mensagem que Michael Edwards deixa no início de seu livro é de “que o tema da ‘transformação social’ não é trabalho a ser deixado com as forças do Mercado ou a mercê dos caprichos de bilionários. Talvez se apoiássemos a energia e criatividade de milhões de pessoas comuns, poderíamos criar uma fundação para um progresso duradouro que nunca passe por um processo de cima para baixo vindo de uma nova elite global, por mais bem intencionada que ela seja”
O livro de Edwards reflete sobre a necessidade de transformações sistêmicas, complexas e integradas e não acredita que há produtos e serviços que farão as diferentes mazelas sociais se relacionarem de modo mais justo e menos desigual, apenas por meio de “mais capitalismo para corrigir os problemas que o próprio capitalismo gerou”. Para colocar de uma maneira simples: “a sociedade civil e o Mercado estão fazendo perguntas diferentes, não simplesmente encontrando diferentes respostas para uma questão em comum sobre oferecer produtos e serviços com mais impacto social”

Fica a reflexão e a dica de uma leitura não tão convencional quando o assunto é mudar o mundo e ganhar dinheiro com isso. Afinal, ” concentrar investimentos em algumas poucas grandes organizações, padronizar a produção e o gerenciamento de sistemas de informação e reforçar indicadores para mensurar facilmente sucessos de curto-prazo são elementos essenciais de uma empresa de sucesso, mas possivelmente a sentença de morte de uma sociedade civil próspera e atuante”

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