Doze passos práticos para solução de problemas (sociais), por Paul Polak (#2 parte)

Como prometido, segue a segunda parte da breve análise do primeiro capítulo do livro Out of Poverty, de Paul Polak (sem tradução para o português).  Para quem perdeu os 6 primeiros passos, copio aqui novamente a lista dos doze:

  1.  Vá onde a “ação” está;
  2. Converse com as pessoas que enfrentam o problema específico e ouça o que elas têm a dizer;
  3. Aprenda tudo o que você puder em relação ao contexto específico do problema;
  4. Pense grande e aja grande;
  5. Pense como uma criança;
  6. Enxergue e faça o óbvio;
  7. Se alguém já tiver inventado, você não precisa inventar tudo novamente;
  8. Tenha certeza que sua abordagem tem impactos positivos mensuráveis e que podem ser ampliados e ganhar escala. Tenha certeza de que pode atingir um milhão de pessoas e fazer a vida delas, de forma mensurável;
  9. Desenhe/crie/invente para custos específicos e preços adequados a seus públicos –alvo;
  10. Siga planos práticos de três anos
  11. Continuem aprendendo com seus consumidores/beneficiários
  12. Mantenha-se positivo/motivado: não se distraia com o que outras pessoas pensam

 7. Se alguém já tiver inventado, você não precisa inventar tudo novamente

Normalmente, hesita-se em usar ideias de outras pessoas ou lugares. O autor fala de diversos lugares onde se deparou com a síndrome do “não-inventamos-aqui”. Porém, uma simples pesquisa ao redor do mundo (aqui vale sim usar a Internet) para saber se alguém já descobriu ou usa uma solução específica para o problema que busca resolver mais rápido e fácil de trabalhar do que sempre tendo que inventar algo do zero.

O interessante é o exemplo dado: Polak acreditava ter descoberto um jeito novo e inteligentíssimo de irrigar plantações fazendo pequenos buracos na mangueira e deixando gotas de água regarem as plantas. Descobriu logo em seguida que os israelenses haviam desenvolvido esta técnica 35 anos antes e a chamavam de Irrigação por Gotejamento (“Drip Irrigation”). A partir daí, decidiu aprender tudo o que podia sobre esse sistema e começou a desenhá-lo para cortar custos e readaptá-lo para pequenas plantações (afinal, o sistema representava apenas 1% das plantações irrigadas, devido ao tamanho, complexidade e custo)

8. Tenha certeza que sua abordagem tem impactos positivos mensuráveis e que podem ser ampliados e ganhar escala.

Quantas pessoas poderão se beneficiar de um projeto de desenvolvimento se ele provar seu sucesso? É com essa pergunta que Polak abre a discussão sobre impactos, avaliação e escala. Seu exemplo vem da Somália: enquanto a Organização Mundial do Trabalho esforçava-se em um projeto de produção de sabonete junto às refugiadas, como forma de gerar-lhes renda e auto-estima, Paul Polak questionava alguns pontos desse projeto. O produto final era mais caro do que se fosse importado o sabonete mais fino de Paris; por outro lado, as refugiadas não podiam então acessar os mercados locais, o que impossibilitaria a continuidade do projeto após a eventual saída da OMT.

Ao mesmo tempo, alguns refugiados poderiam aumentar seus mercados se conseguissem salgar ou defumar os peixes que pescavam (já que refrigeração não estava disponível). Mas todos os pescadores precisavam também de transporte mais rápido e a um custo acessível. Sendo assim, o desenvolvimento de carrinhos puxados por burros foi uma solução muito mais simples, barata e efetiva para a região.

9. Desenhe/crie/invente para custos específicos e preços adequados a seus públicos –alvo

Assim como no caso da Organização Mundial do Trabalho na Somália, muitas organizações voltadas para o desenvolvimento se esquecem de pesquisar qual seria o custo e o preço final do produto desenvolvido para que ele se adapte perfeitamente ao mercado local. Mais para frente em seu livro, Paul Polak discute a importância de “desenhar para os outros 90%” (tema que será abordado em outro texto mais para frente).

A ideia essencial é desenhar, adaptar, criar ou inventar algo com objetivos pré-estabelecidos, forçando-se a ser criativo o suficiente para alcançar o resultado obtido. Um exemplo dessa forma de “design thinking” é o projeto 300$ House[1], no qual estipulou-se o valor final (U$300) e algumas outras diretrizes para se desenvolver uma moradia que fosse financeiramente acessível e completa. O processo foi totalmente colaborativo.

10. Siga planos práticos de três anos

Você pode ter um plano de mudar o mundo, com uma visão incrível do futuro, mas se você não puder chegar em um plano concreto para os próximos três anos, não chegará a lugar algum. Este plano, não deve nem ser excessivamente ambicioso, pois corre-se o risco de falhar antes de chegar ao objetivo final,  nem muito abrangente e não consolidar as bases necessárias para dar escala quando for a hora.  Nem tão grande, nem tão pequeno. Do tamanho certo.

11. Continuem aprendendo com seus consumidores/beneficiários

O autor divide o processo de aprimoramento dos sistemas de irrigação por gotejamento de baixo custo. Tendo suas atividades iniciais no Nepal, Polak conta que de início as vendas foram significativas, mas que os números começaram a cair logo no ano seguinte. A equipe de campo do IDE percebeu que muitos fazendeiros que haviam comprado os sistemas estavam usando apenas uma pequena parte do produto.

Depois de algumas entrevistas com fazendeiros, percebeu-se que a maioria cultivava milho ou painço (milho-míudo) e não estavam acostumados a agricultura intensiva que um sistema de irrigação poderia propiciar, fazendo crescer vegetais fora da estação. A equipe de Pokhara, convenceu o escritório nacional em Katmandu, que convenceu Polak sobre a necessidade de oferecer treinamento aos fazendeiros para que tirassem melhor proveito do produto. Isto nunca teria acontecido se não fosse uma prática diária ouvir aos consumidores/beneficiários.

Segundo o autor, tudo o que fez, criou e desenvolveu nos últimos anos vem de conhecimentos adquiridos junto ao seu público-alvo, normalmente fazendeiros de baixíssima renda e poucos recursos.

12.  Mantenha-se positivo/motivado: não se distraia com o que outras pessoas pensam

Este com certeza é um ponto chave na vida de muitos empreendedores sociais e pessoas que estão em busca de algo “fora da caixa”. Primeiro o autor conta sobre sua empreitada por um gerador de energia elétrica fosse mais acessível do que o modelo movido a diesel de U$500. Sua ideia era desenvolver um que utilizasse forragem de animais e custasse apenas U$125.

Depois, compartilha suas experiências com sistemas de irrigação por gotejamento de baixo custo para microplantações familiares. Se fosse possível baixar drasticamente o preço e aumentar de forma significativa o acesso e as aplicações do sistema, uma revolução poderia ser iniciada. Em ambos os casos, Polak ouviu de muitos que “se isto fosse de fato uma necessidade, o Mercado já teria se prontificado a desenvolver o produto”.  Se o carro de U$500 de Henry Ford e o computador de U$2000 de Jobs e Wozniak foram frutos de certa teimosia de alguns empreendedores até que alcançassem seus objetivos e sonhos, por que no caso da erradicação da pobreza a mesma lógica não se aplicaria?

Infelizmente o livro Out Of Poverty, de Paul Polak, ainda não possui versão em português, mas você pode adquiri-lo na Livraria Cultura ou pelo site da Amazon.com (audiobook ou entrega internacional, em ambos os casos)


[1] não comentado no livro, minha colaboração

 

 

 

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1 comentário a “Doze passos práticos para solução de problemas (sociais), por Paul Polak (#2 parte)”

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