Um dia na pele de um personagem de Kafka

Há um certo tempo publiquei um texto chamado Emergentes ou em situação de Emergência? – no blog Um Jornalismo Social – em que discutia semelhanças entre as moradias erguidas por moradores vítimas das enchentes no Alagoas e alguns barracos de favelas de São Paulo.

A brincadeira com o título do post não era à toa. Afinal, países com o Brasil e a Índia, amplamente comentados pela sua emergência, no sentido de crescimento e elevação de status, são também cenários cotidianos das mais sérias emergências, no sentido desesperador da palavra. Enquanto discutem-se os avanços econômicos e um olhar macro voltado ao desenvolvimento dos números destes países, o que se observa nas ruas é ainda um cenário desolador em muitos aspectos.

Pessoas continuam a viver em condições de moradia absurdamente precárias, mesmo já havendo diversas soluções e projetos capazes de melhorar a qualidade dos “abrigos” estabelecidos por estas famílias. Uma delas – e claramente escolhida a dedo para este artigo – são abrigos emergenciais, construídos (ainda como piloto) no Haiti pela Uber Shelter. Longe de afirmar que estes abrigos são uma boa opção definitiva para a questão da moradia, fico com uma questão: por que devemos esperar uma situação de desastre para abrir nossos olhos em relação às verdadeiras emergências?

Proponho então um exercício filosófico – difícil de ser realizado: imagine-se você no corpo de um personagem de Franz Kafka, cujo entendimento da realidade foi afetado por um fenômeno aleatório, em um dia qualquer. Nesse dia escolhido, ao invés de se encontrar no corpo de um inseto, você perdeu a habilidade de se acostumar e “desaprendeu” a reconhecer alguns elementos considerados banais à sua volta. Assim, sai na rua e vê uma pessoa deitada na rua, vestida em trapos imundos e suplicando por comida. Alguns minutos parado ali e você percebe que as pessoas passam por aquela situação sem mobilização alguma, sem expressão de sentimento algum. Indignado, você corre até aquela pessoa e pergunta: O que aconteceu com você?

Em outra situação, andando de ônibus numa metrópole, você avista da janela uma espécie de bairro, porém há algo errado com aquilo tudo. Grita ao motorista que pare o veículo e convida energicamente o resto dos passageiros a investigar àquela situação ao seu lado. Desce sozinho do ônibus, cercado apenas por olhares carregados de julgamento em direção às moradias que vão tomando forma e personalidade com a sua aproximação. Entre paredes desestruturadas de madeira da pior qualidade, pedaços de tecido e telhas sobrepostas, encontra uma família de 7 pessoas sentadas no chão de barro. Parece ser a hora do almoço e eles dividem do mesmo prato uma pequena quantidade de comida. Sem cor, sem cheiro e provavelmente sem sabor. Incrédulo com o que vê, você pergunta ao chefe da família: o que aconteceu nessa região?

Penso que, após o estranhamento inicial, as pessoas ao redor tentariam nos trazer de volta a “realidade”, ao conformismo no qual já estamos presos e pouco fazemos para nos libertar. Mas o que será que nos falta para que, ainda na realidade, comecemos a nos mobilizar em relação ao que já é possível melhorar e desenvolver?

 Obs: Texto publicado na Revista Shalom em Julho

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