Enquanto esperamos…

Eu queria que a polícia invadisse as favelas de São Paulo. Ou que pelo menos o governo federal decidisse inundar as regiões mais pobres da cidade com água, conseqüência de uma outra obra qualquer de desenvolvimento questionável do país. Na verdade, eu só gostaria que nós, como sociedade, como vizinhos, como cidadãos, não deixássemos para cuidar de nossos problemas sociais somente quando eles se tornam cults o suficiente para serem discutidos. Ou quando eles invadem fisicamente o nosso cotidiano.

Que a política de “dor e sofrimento” do governo de São Paulo em relação à Cracolândia é uma aberração, é praticamente indiscutível (pelo menos sem uma maquiagem mais bacana do que “dor e sofrimento”). O que não tem sido levado muito em conta é que uma política com esse nome tem certa efetividade a partir do momento em que a “dor e sofrimento” atingem as camadas mais favorecidas dessa mesma cidade, obrigadas a lidar com a questão descentralizada, espalhada pela cidade, em “suas” ruas e calçadas, não mais presentes apenas naqueles locais já estereotipados e evitáveis: como o temido centro da cidade.

Não se pode mais andar pela cidade sem notar a presença dos antigos moradores da Cracolândia que, dessa vez, não foram apenas colocados em caminhões higienistas e isolados para uma região qualquer do interior do estado. Dessa vez, a população de São Paulo não vai mais poder apenas “saber da existência” de certas políticas questionáveis. Vai sentir na pele. E é um problema novo? Não. É uma política nova? Também não. Mas desta vez, não dá só para criticar via redes sociais, todo mundo quer acabar com esse sofrimento (fico na dúvida qual sofrimento, o dos usuários de crack vitimizados ou de uma classe média e alta obrigada a conviver com a realidade).

Imagine então que a mesma coisa aconteça com as favelas e assentamentos ilegais e temporários que existem por ai. Ao invés de desalojamentos e remoções acontecerem meio que na miúda, com todo mundo sabendo que eles acontecem, dessa vez os moradores expulsos da favela “A” iriam construir seus barracos de madeirite, panos e restos de outdoors no meio da Avenida Paulista, apoiados no belo vão do MASP, atrapalhando a vista do planalto. Não como forma de protesto, não para ocupar o espaço público de forma diferenciada ou coisa do gênero, mas pura e simplesmente para se realocar em um lugar qualquer. Em busca de minimização de dores e sofrimentos causados pela incompatibilidade de sua existência com o resto da cidade.

Quantos de nós iríamos às ruas, realizaríamos campanhas virtuais e nos mobilizaríamos se batessem à nossa porta avisando que a partir de agora o portão que nos protege do mundo exterior servirá de apoio para um barraco que foi despejado? Ou que no caminho entre as árvores do bairro residencial até o trabalho, antes momentos de prazer, agora habitam as mesmas estruturas precárias de habitação que se escondem por toda a cidade em aglomerações de famílias sob esgoto aberto, descaso e esquecimento? Alias, de que adianta falar em esgoto aberto se a classe média e a chamada elite desse país pouco conhece as sensações de se conviver com o cheiro de fezes constantemente à sua porta.

São esses os momentos em que descobrimos que o outro existe, que o que tememos não é um bloco sem vida. Não se fala em Cracolândia, mas em usuários de crack. Pessoas que como nós sangram quando agredidas, engravidam antes da hora ou de forma pouco planejada, sofrem dramas diários de toda ordem. E choram. Compartilham sua dor e sofrimento se assim lhes for dado espaço, se o contexto no qual estão inseridos lhes permitir ser vistos como uns, e não como apenas outro.

E que mal que tem se mobilizar quando um problema atinge a nossa porta? Nenhum. Vejo com bons olhos toda mobilização construtiva e questionadora. Só penso que poderíamos dedicar ainda mais tempo da nossa preciosa e escassa carga horária semanal para lidar com nossos problemas sociais antes que eles explodam.

Talvez, se finalmente fosse exposta, a realidade pela qual milhões de pessoas atualmente em situação de vulnerabilidade social e extrema pobreza passam dia após dia poderiam receber a atenção que merece. Por favor, não deixe a polícia invadir a favela. Nenhuma delas. Não é disso que estou falando. Mas também não deixe que a situação se mantenha da forma como está.  Abrir os olhos pode ser doloroso para nós, mas mantê-los fechados por muito tempo pode nos fazer esbarrar mais tarde em algo sem retorno.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s