Retorno: Índia, Oriente Médio e Leste Africano

Mochila Social

Foram mais de cinco meses na Índia, ocupado acompanhando o ciclo migratório de trabalhadores semi-escravos pelo leste do país e tentando entender os impactos desse processo em suas condições de pobreza e na educação de seus filhos. Ao mesmo tempo, colaborava com a construção de um mapa dos chamados “negócios sociais” que despontavam por todo o país e atraiam a atenção das novas mídias e interessados de toda parte nessa nova área social. Por último, um mês em Mumbai, observando as desigualdades sociais expressas na cidade e tentando imergir em Dharavi, considerada uma das maiores favelas do leste asiático.

Meses depois, mudei-me para Israel, onde trabalhava com cooperação internacional em uma agência do ministério das relações exteriores, focado principalmente em África, Ásia e América Latina. A pesquisa e a elaboração de textos e cursos tinham o objetivo de adaptar experiências de sucesso do país para contribuir com o desenvolvimento de países ainda no meio – ou no início – desse processo. De lá, uma excelente oportunidade para explorar iniciativas sociais na Jordânia, no Egito e observar o desenvolvimento da Palestina (pelos mais variados pontos de vista).

Antes de voltar ao Brasil, em meados de junho de 2011, considerei a hipótese de conhecer a África e, naquele momento, ainda compartilhava de maneira ignorante a visão em bloco de um continente-país. Minha motivação era bastante simples: se eu estava interessado, estudando e tentando me expor a experiências nas mais variadas formas de desenvolvimento social e pobreza, o continente estigmatizado pelo tema teria que fazer parte do meu itinerário. E assim foi.

Depois de algumas rápidas pesquisas, decidi ir ao chamado Chifre da África. Por quê? Porque já havia ouvido falar, e se já havia ouvido falar é porque a região trazia algumas notícias de tempos em tempos nos meios de comunicação dos quais eu bebia. E assim, fazia parte do meu imaginário do que a África, como um todo, seria. Não achei certo ir apenas para um único país, e basear toda a minha experiência no continente apenas de uma única visão. Assim, no mapa, fiz um trajeto com canetinha[1] passando por alguns países dessa região, um pouco baseado na pesquisa prévia, um pouco pensando nos contatos que eu já possuía e muito pela beleza estética do roteiro quase circular que eu desenhava.

Sabia da existência de algumas dificuldades técnicas para viajar por aquela região. Afinal, a África subsaariana é cercada por histórias sombrias de países cujos acontecimentos internos são um mistério, como Somália, Sudão e Congo. Mas no mapa, o contorno em volta do Lago Victoria começando da Etiópia e terminando na Tanzânia soava como uma opção muito óbvia. E o estigma de pobreza da região me atraía. Atraia-me, não por um vouyerismo barato, mas pela oportunidade de desconstrução de uma imagem ainda nem bem formada na minha cabeça. Afinal, do que estamos falando quando descrevemos com tanta propriedade um lugar do qual nem ao menos conhecemos?

Resolvi ir. Chequei minha conta bancária e percebi que o dinheiro que havia juntado para as duas viagens anteriores sobrevivia solitário, ainda que ele estivesse na UTI[2]. Pensei em captar recursos, mas o processo com empresas e parceiros se mostrou ineficiente à distância. Cogitei uma arrecadação de recursos entre amigos e conhecidos, mas acabei decidindo manter a minha relação com o projeto distante da lógica de contribuições financeiras. Meu objetivo era aprender. E aprendendo, compartilhar e mobilizar outras pessoas a criarem suas próprias formas de contribuir com a mudança da realidade, como indivíduos, para a construção de uma sociedade mais justa aonde quer que estejam.

Mas da minha parte, não adiantaria apenas ficar na frente do computador ou sentado em uma biblioteca estudando o que se fala por ai da pobreza. Não acredito em uma definição de pobreza. Não acredito que existam pobres por ai. Pobreza é uma condição, mutável, uma soma de fatores organizados ou desorganizados de forma a desequilibrar o funcionamento justo de uma vida humana. Minha contribuição não é por meio da palavra, nem por meio do texto. Eu não gosto de escrever. Eu acredito na construção de experiências relevantes que moldem quem nós somos e, a partir daí, o quer que façamos será “social”, benéfico e positivo.

Nos últimos meses estive ocupado escrevendo para o projeto Mochila Social, de minha própria autoria. O site fica ainda online, disponível com os textos, fotos e vídeos que foram produzidos enquanto viajava pelo leste africano. A partir de agora, volto a escrever neste blog – Um Jornalismo Social – com a intenção de trazer um pouco mais sobre assuntos desse tal de “social”. Aos poucos vou me reorganizando para trazer informações interessantes sobre desenvolvimento social, extrema pobreza e inovações socias.


[1] Mentira. Fiz isso tudo no Google Maps usando ferramentas sofisticadas de demarcação de rotas, mas esta é a minha versão moderna da história da canetinha

[2] Havia trabalhado em dezenas de lugares antes de iniciar a viagem. Além disso, acabei por escrever algumas matérias para veículos brasileiros enquanto estava na Índia e em Israel, o que me garantiu uma renda extra enquanto viajava (e claro, o custo de vida na Índia e na África é incomparavelmente inferior a minha querida paulicéia desvairada)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s