11 de julho: Foi um puta de um massacre…

Da Rosa ao Pó – Histórias da Bósnia pós-genocídio, de Gustavo Silva.

“Uma vez por ano, a população dos vivos superava a dos mortos em Potocari, e aquele era o dia em que isso acontecia”

Potocari é uma pequena cidade/vilarejo, perto de Srebenica, que fica a algumas horas de Sarajevo, cujo nome era o único que eu já havia ouvido falar. E que havia ocorrido um genocídio na Bósnia? Eu sabia. Mas quem contra quem, números, qualquer outra informação ou sentimento relacionado ao evento ocorrido há menos de 20 anos, isso eu não fazia a menor idéia.

E não posso dizer que não me envergonho de certa forma. Eu, que me considero um sobrevivente indireto da Shoá, evento ocorrido há mais de 70 anos na Europa. Eu, que diversas vezes levantei a voz para repetir a frase: “Holocausto, nunca mais! Para povo nenhum”.  Eu que descobri só agora, infelizmente, o que foi o genocídio na Bósnia.

Não posso negar que me incomodou o fato de encontrar algumas similaridades com o que eu já havia vivenciado. Chorei ao ler sobre a existência de uma Marcha da Morte na Bósnia.  Chorei também ao ler na camiseta dos sobreviventes frases como “nunca esquecer” e dizeres semelhantes à “genocídio nunca mais”.  Chorei nos dois dias em que não consegui desgrudar do livro Da Rosa ao Pó – Histórias da Bósnia pós-genocídio, de Gustavo Silva.

Mais do que delicado, o livro traz um olhar jornalístico preciso, um texto envolvente, rico em detalhes e informações fundamentais para a compreensão do que aconteceu no conflito. O autor mistura sua experiência pessoal de participar na Marcha da Paz, uma caminhada de 110 km e três dias pela trajetória antes percorrida pelas vítimas do genocídio. Isso sem deixar transparecer ao leitor os sentimentos, reações e indignações de um jovem observador e crítico de onde mais uma vez fomos capazes de chegar.

Gostaria que livros como esse não tivessem mais assunto para abordar, mas infelizmente parece que não aprendemos com os erros do passado. Continuamos a reproduzir ódio e realizar diferentes formas de repressão, opressão e assassinatos em massa, baseados na crença de algo injustificável. Ao mesmo tempo, agradeço não só o registro histórico em português – espero que em várias outras línguas no futuro – mas também as impressões e digressões de extremo valor. Um grande respeito às vítimas deste e outros genocídios foi prestada nas palavras impressas neste livro. E eu agradeço por isso.

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