Curriculum Vitae – Um olhar sobre o que enxergamos de nós mesmos

Semana passada fui dar um Workshop para refugiados (também asylum seekers) vindos de diferentes países africanos, convidado pela African Refugee Development Centre – ARDC (workshop realizado em parceria com a Tov Lada´at). A organização está orientando estas pessoas a entrarem na universidade e fui convidado para ajudá-los a montarem seus currículos profissionais e acadêmicos para o processo de seleção da IDC – Herzliya, uma instituição de ensino internacional e privada em Israel.

Sentado ao final da apresentação com Luke, um nigeriano de 41 anos, alto, forte e com diversas marcas de queimadura sob a face e os braços, começamos a debater seu currículo – escrito à mão – para entrada na universidade e o assunto nos levou um pouco mais longe. Após alguns comentários técnicos sobre como reorganizar melhor a informação na carta de apresentação e no currículo para a universidade, entramos no assunto óbvio e vou tentar reproduzir um pouco da nossa conversa:

– E ai Luke, é melhor ser um refugiado em Israel ou um “cidadão” nigeriano?

Gostei de como começou sua resposta: “depende.” E assim, tive a grata oportunidade de discutir o que esse “depende” significa.

-Olha, acho que essa pergunta vai sempre ter uma resposta diferente dependendo de quem vai responder pra você. A Nigéria é um país complicado, a burocracia do país exige que você conheça alguém que conheça alguém para que as coisas sejam feitas. Eu não gosto disso.

-Entendo… Mas olhando seu currículo, você tem experiência com formação de jovens, foi da guarda nacional, trabalhou com segurança privada e uma consultoria de pequenos negócios. O que você faz aqui?

-Entenda Alex, esse é o outro lado. Minha mulher veio pra cá depois de trabalhar mais de 5 anos em uma companhia aérea da Nigéria. Ela foi demitida em um corte de pessoal e foi quase que obrigada a vir pra cá. Ela hoje trabalha na casa de uma família, limpa a casa, cuida de crianças, cozinha. Ela volta pra casa e chora todo dia. Isso não é emprego, isso não dá dignidade.

Quem é o refugiado por trás do estigma de ser um refugiado? As condições de uma região (fonte) fazem com que diferentes tipos de pessoas se vejam obrigadas a migrar para uma região nova (destino), qual será a perda potencial que essas migrações não acarretam? Será que as habilidades e capacidades poderiam ser melhor aproveitadas se houvesse um processo inclusivo um pouco mais abrangente, que levasse em consideração as experiências passadas e tentasse enxergar o migrante não apenas como um objeto em transição, mas como a possibilidade de aprendizado de uma experiência e vivência diferentes?

Mais do que isso, quando conhecemos alguém, contratamos um novo empregado ou interagimos brevemente com outra pessoa, como poderíamos saber o que mais essas pessoas têm a contribuir? Na sala da ARDC, outros rapazes vindos de países como Eritreia, Etiópia e Sudão compartilham um pouco de suas histórias pessoais em seus currículos.

-Alex, esse é o meu. Não tinha muito o que colocar.

Em seu currículo, havia apenas suas informações de contato e uma área de experiência profissional escrita apenas: “dish washer (lavador de pratos)”. Uma injustiça. Um rapaz brilhante, destaque escolar em seu país de origem, eloqüente no inglês – longe de ser sua língua materna – e recém chegado a Israel depois de uma longa jornada por terra de seu país até Israel. Por longa, entenda uma viagem por terra da Eritreia, passando pelo Sudão (sul e norte), depois Egito, deserto do Sinai traficado por beduínos e por último preso ao ultrapassar a fronteira com Israel.

Mas é assim que ele se enxerga hoje. Nada referente às qualidades necessárias para deixar um país e se auto transferir em busca de um lugar mais estável. Nada referente a incrível capacidade de sobreviver a uma jornada de semanas e, claro, nenhuma referência a habilidade de se adaptar a um novo país, aprender o básico de uma língua de grafia diferente e sustentar uma pequena família pagando aluguel, trazendo comida para casa e enviando um pouco de dinheiro ao restante de sua família no Sudão.

É claro, o exemplo deles pode ser trazido a praticamente qualquer outra realidade, outro país. Na Índia, os migrantes das áreas rurais são também traficados até as grandes cidades, onde trabalham em regime de semi-escravidão em tarefas nas quais não se exigem nenhuma habilidade. Todo o expertise em agricultura, toda a riqueza cultural e tradicional destas pessoas vai por água abaixo quando se deparam com essa nova realidade urbana(se interessar, leia mais sobre minha pesquisa em migração no leste indiano).

Ao invés de refugiados, migrantes ou qualquer outra população específica em deslocamento, poderia se discutir as mesmas características esquecidas nas pessoas que interagimos por toda parte, as quais definimos apenas por sua atividade presente. Somos todos muito mais do que simplesmente o que fazemos profissionalmente. O desafio é então como trazer essas características para o dia a dia.

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2 comentários a “Curriculum Vitae – Um olhar sobre o que enxergamos de nós mesmos”

  1. Uau, muito bom, mesmo! Realmente, o desperdício de potencial é absurdo. E vemos isso acontecer regularmente com nossos próprios conhecidos que decidem fazer mudar de país (principalmente para fazer aliá) e acabam realizando muito menos do que poderiam. Adorei o texto!

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