Varanasi – De volta a Índia na pele de um Dalit

Durante o dia, milhares de indianos andam pelas ruas de Varanasi. Em pleno Shivaratri

Voltei à India. Nos últimos 4 dias, estive de passagem na cidade mais intensa do país, cujas memórias não conseguia expressar até este retorno. Infelizmente não fui de avião, mas por meio de um livro. Nas 320 páginas narradas como um diário, o escritor francês Marc Boulet se expõe a uma imersão jornalística na cidade de Varanasi. Na pele de um Dalit, a casta dos intocáveis.

Varanasi me marcou de diferentes maneiras. Senti-me encantando com a riqueza cultural e a intensidade da região. A cidade tem um propósito, religioso, e atrai tudo o que a India tem de mais curioso. Mas a cidade também me machucou. Feriu-me pois veio comprovar centenas de pensamentos inconclusos sobre o país, através de diversas demonstrações cotidianas e banais de que alguma coisa não estava indo bem por ali.

O sistema de castas não é visível. Pelo menos não a olho nu. Não é preto no branco como outras formas de racismo, não está relacionado necessariamente à classe econômica e tem pouca relação com o território ou qualquer tipo de fronteira. É uma questão de fé, de crença, de tradição. Mas é algo que o observador atento sente, e o indiano comum respira. E é apenas a base para uma série de outros comportamentos baseados nessa lógica.

Vestido de indiano, de rosto pintado, sujo e fluente em híndi, o escritor francês compartilha o diário de sua experiência com o leitor. Não é a primeira vez que ele faz um trabalho de imersão como esse (Marc Boulet já havia escrito um livro em que se passava por um chinês de etnia turca para desvendar um cartel de drogas em uma vila isolada), mas é a primeira em que sua reportagem é “prejudicada” pela realidade cruel a qual observa.

Em Varanasi estive com dois amigos, um homem e uma mulher. Vimos juntos o arder de infinitos corpos ininterruptamente às margens do Ganges, observamos juntos às famílias o derreter de carne, osso e história de algumas dezenas de pessoas que ali foram cremadas. Buscamos entender as razões por trás de cada uma das pequenas peculiaridades do espetáculo mórbido ao qual éramos expostos.  Nos desvencilhamos de pedintes de toda ordem, tentando compreender a necessidade de cada um deles, e tentando não ser explorados pelos aproveitadores.

Nas ruas estreitas por entre os Ghats*, centenas de vacas aglomeradas atrapalhavam a passagem e minavam as ruas com seu excremento. No hostel uma discussão intensa com um dos donos do lugar quase nos fez apanhar, e tudo por causa da falsa promessa de uma cama. A gritaria desnecessária e algumas acusações bastante desrespeitosas nos deixaram com certa tristeza em nossa estadia. Pulamos no rio Ganges, considerado um dos mais sujos do mundo, e tive a infelicidade de perder meus óculos durante o salto de nossa humilde embarcação à remo.

Cremação

Visitamos um Ashram cristão, onde serviam comida gratuita para estrangeiros e vivenciamos a liberdade alcoólica do alto de um prédio, distante da fiscalização religiosa que ouvimos e acreditamos existir. Para a viagem, nos programamos. A idéia era estar em Varanasi durante o festival de Shivaratri*. A cidade foi escolhida a dedo, já que sabíamos ser um dos melhores e mais religiosos lugares para se comemorar o casamento de Shiva com Parvatri.

O cronograma estava claro: a partir da meia-noite, os devotos iriam fazer uma caminhada de aproximadamente 22 km à beira do Ganges e o festival duraria até o dia seguinte. Claro, pensamos em algo como se celebra o ano novo no Brasil. Não podíamos estar mais errados.

Uma das tradições no Shivaratri é a oferenda de uma bebida chamada Bhang Lassi. A regra diz que aonde houver uma estátua de Shiva, seu tridente ou um templo, a bebida deve ser oferecida de graça a todos que passarem por ali. A bebida tem um fator entorpecente de alto impacto, já que é feita com THC. Porém, a bebida, e algumas outras drogas, são vendidas a preços simbólicos na loja do governo (não posso esquecer um rapaz na rua nos orientando a comprar drogas apenas da loja do governo, já que os que vendem na rua tentam extorquir as pessoas).

Nesse dia, a cidade inteira passeava entre as vielas como zumbis. Varanasi estava completamente lotada de peregrinos, que entre empurrões e comentários, aproveitavam a situação para tocar as mulheres que se arriscavam a caminhar junto com a multidão. Jantamos no alto de um prédio e nos preparamos para descer por volta das onze e meia da noite, e acompanhar de perto a peregrinação.

Ao descer, viramos a primeira rua à esquerda e chegamos rapidamente a uma longa escadaria de um dos ghats, de frente às margens do Ganges. Pela parte cimentada que beira o rio, assistimos boquiabertos uma legião de milhares de indianos caminharem na direção contrária a corrente do rio, porém muito mais fluídos que o rio sagrado e imundo. A cena era interessante, mas um pouco assustadora. Éramos visivelmente os únicos estrangeiros andando pelas ruas, mas resolvemos mesmo assim nos misturar.

Atravessamos o leito de pessoas e começamos a dançar junto à música que tocava no pedaço em que estávamos. De um minuto para o outro, a corrente de pessoas que antes fluía sem pausas, agora começa a inflar o lugar onde estávamos, como um cano entupido. Dezenas e talvez centenas de pessoas nos cercavam e dançavam conosco, as vezes fazendo piada de nós, as vezes tentando nos separar. Os olhares fixos e os sorrisos doentios estampavam a grande maioria dos rostos a nosso redor e percebemos um excesso de contato físico por parte da multidão (para colocar o tema do jeito mais polido que me permito).

Resolvemos sair dali. Quase que às pressas. Aquele momento contemplava, e resumia, um histórico de desrespeitos de gênero ao longo de toda minha estadia no país. Tristes, saímos daquela região e fomos em direção ao templo em que teoricamente haveria um ritual pela madrugada. Caminhando a esmo pelas ruelas escuras e vazias, fomos aos poucos percebendo que talvez carregávamos um pacote com informações questionáveis. Enfim, um senhor de muita idade e poucas roupas cobrindo o corpo nos orientou, de forma enfática, de que nosso lugar era de volta ao hotel, junto aos outros turistas.

Voltamos para casa. Trancamos a porta. Minha amiga ficou no hotel, meu amigo saiu comigo para uma caminhada pelos ghats, muito mais vazios agora. Andamos por algumas horas talvez, ao longo da madrugada, tentando entender um pouco do que vínhamos sendo expostos e reencontrar significado em alguns comportamentos comuns à India.

Imagino que não tenha ficado clara a conexão da minha história com a citação do livro Na Pele de um Dalit, de Marc Boulet. Infelizmente, para entender o que me motivou a escrever, ainda que não tenha expressado nada do que penso, vale a leitura do livro ou a visita à India. Pode ser na pele de um estrangeiro, de uma mulher, de um intocável.

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3 comentários a “Varanasi – De volta a Índia na pele de um Dalit”

    1. Oi Gerson,
      sem dúvida, além do livro ser interessantíssimo, é um belo retrato dessa parte da sociedade indiana (grande parte dela). Também mergulhei no livro 😉
      Abraços

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    2. Oi Gerson,
      sem dúvida, além do livro ser interessantíssimo, é um belo retrato dessa parte da sociedade indiana (grande parte dela). Também mergulhei no livro 😉
      Abraços

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