Problemas de moradia – Aqui e ali…

Foto1. Lado leste (oriental) divisão com a Cisjordânia
Foto 1.1 Jerusalem oeste (ocidental)

Em uma das primeiras vezes que vim a Israel, foi me apontada a região leste de Jerusalém (oriental, de maioria árabe) em contraposição à oeste (ocidental, de maioria judaica e cristã). Na região de moradia árabe, as casas mais simples e de menor estatura eram predominantes e um clima de confusão pairava pelo ar. Não mais que a falta de planejamento que deu espaço a um crescimento orgânico e desorganizado.

Do outro lado, uma cidade muito mais verde, com espaços públicos planejados e uma infra- estrutura urbana destinada à ocupação qualificada dos poucos quilômetros quadrados de área, lar da maioria judaica da cidade. Já a cidade velha, imponente e intocável, continua praticamente intacta estruturalmente dentro dos antigos limites dos muros de proteção da cidade.

Desta vez me foi exposta uma terceira perspectiva. Algumas outras regiões a serem observadas para ampliar ainda mais o entendimento da situação. Para além das fronteiras com a Cisjordânia, pode-se ver a cidade de Abhu Dis, onde a Universidade Palestina tem sua sede e o estado Palestino aos poucos se desenvolve. A diferença no tipo de construção e a altura dos prédios deixam claro que os palestinos, quando livres de regulação, adotam um modelo parecido com o israelense, de maximização do espaço para o desenvolvimento.

Além das restrições impostas, o que chama a atenção é a diferença de investimento ativo por parte do governo municipal de Jerusalém em algumas regiões da cidade. Diferentes áreas da cidade recebem diferentes prioridades no planejamento urbano e na distribuição de serviços públicos. As casas vivem sob constante ameaça de demolição por sua ilegalidade. Mas por outro lado, são casas, de concreto, com ruas de cimento, energia elétrica e conectadas a rede de saneamento básico e coleta de lixo, em sua maioria. E do nosso lado, no Brasil?

Não pude deixar de pensar em todos os espaços de incerteza fundiária do Brasil tão ou mais negligenciados pelas autoridades. Afinal, a situação em tese é praticamente a mesma: um grupo de pessoas migrantes ou em transição, vivendo em uma terra onde não são necessariamente bem vindos, sendo negligenciados não só pelo poder público como também pelo resto da população. Mas em São Paulo, as moradias se aglomeram entre barracos instáveis de madeira e tecido, aglomerados em terrenos em que não se diferenciam ruas e perde-se a noção de espaço público/privado.

Quantas não são as favelas ou regiões periféricas de São Paulo ignoradas por completo pelos serviços públicos e longe de possuírem algum tipo de planejamento urbano em vias de ser implementado? E quantas não são as regiões vizinhas umas as outras, que interagem entre si, mas recebem diferentes investimentos estruturais pelo simples fato de abrigarem mazelas sociais distintas?

A foto 1 expõe as sutis diferenças entre Jerusalém Oriental e Ocidental enquanto a foto 2, clássica de desigualdade social em São Paulo, contrapõe o bairro do Morumbi com uma das favelas vizinhas. Quem dera conseguíssemos jogar o mesmo holofote dado ao Oriente Médio nos nossos problemas sociais internos. Talvez, antes de discutirmos com toda propriedade os horrores e injustiças do Oriente Médio, países árabes e Israel, seria também importante olharmos para nossas políticas internas – e ações individuais – que estabelecem tamanha desigualdade de direitos.

Claro, uma coisa não justifica a outra, mas tendo estado em ambas as realidades, posso afirmar que a situação diária que nossos vizinhos tem de sobreviver a cada dia nas favelas esquecidas por ai deveriam causar maior fervor no discurso humanitário. Não há mais como desviar as atenções dos nossos problemas internos. É hora de começar a agir corretamente em casa.

Desigualdade social em São Paulo

Obs: Resolvi não ir a fundo nas políticas específicas que transformam a cidade de Jerusalém em um case tão importante nas questões do conflito. Você pode encontrar material relevante – e crítico – nos sites de duas ONG’s israelenses:  B’Tselem e Ir-Amim

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