Ramallah – Construção de um estado palestino

Entrada da cidade, logo na chegada com a van

Baguete, húmus e chocolate na mão e estamos prontos para entrar na van número 18 em direção a Ramallah. Diferente da van na qual cheguei, esta tem cor verde e todas as informações escritas apenas em árabe, nada em hebraico ou em inglês. Sabíamos que o ponto final era nosso destino e que havia um checkpoint no caminho, mas fora isso, apenas acompanhávamos o mapa político que nos foi dado com as mais diferentes marcações da cidade de Jerusalem.

À nossa direita, o polêmico muro de contenção entre as duas regiões traz poucas das tradicionais inscrições de protesto nessa área e o lado esquerdo apresenta-se mais interessante, com casas de médio e alto padrão por quase todo o trajeto. As caixas d’água preta são nossa referência para diferenciar as casas de propriedade árabe das demais. A água da chuva forte que começava a se acumular nas calçadas contribuía para aumentar o trânsito na passagem do primeiro checkpoint.

Nosso transporte nem parou no checkpoint e quando vimos já estávamos na estação central de Ramallah. As placas em árabe indicavam uma região de grande comércio e a rua principal prendeu a atenção devido a sua organização e movimento de pessoas. A chuva e o frio me obrigaram a sair em busca de um agasalho e pude perceber como a diferença de preços com o lado ocidental de Jerusalem era gritante. Um passeio em um mercado popular de frutas e verduras e encontrei um agasalho azul do meu tamanho praticamente escondido em uma pilha de roupas usadas do que seria uma espécie de brechó. 5 shekels (mais ou menos R$2,50) a menos na minha carteira e estava aquecido novamente.

Ouvimos o chamado de uma mesquita próxima e fomos conferir uma das rezas da tarde. Uma infinidade de homens foi chegando pouco a pouco e posicionando-se um a um, lado a lado. Em poucos minutos o tapete verde estava quase todo coberto de homens erguendo-se, inclinando-se e ajoelhando-se coordenadamente ao comando das caixas de som que repetiam os dizeres sagrados: Allāhu Akbar (الله أكبر). Alguns homens nos convidaram a rezar, outros a assistir e poucos se incomodaram com nossa presença por ali. (a garota que estava conosco teve de esperar do lado de fora, pois o ritual é exclusivo para homens)

Saímos em direção ao lugar onde fica a tumba de Yasser Arafat e na porta uma interessante surpresa. Uma placa em português, da inauguração da Rua Brasil, assinada pelos presidentes do Brasil e da Autoridade Palestina, Lula e Mahmoud Abbas respectivamente. Viramos a esquina e encontramos 3 policiais com armamento pesado protegendo o lugar. Em tom sério, nos pediram que entregássemos nossas mochilas e o tempo fechou. Literalmente apenas, a chuva torrencial nos obrigou a correr para dentro da sala de segurança, todos juntos, rindo e apostando uma corrida informal.

A sala da segurança nos deixou em uma situação bem engraçada, típica de filme (de comédia ou suspense): três turistas sendo entrevistados por militares fortemente armados dentro da sala de segurança blindada de um território em disputa internacional. Após alguns minutos de tensão, aguardando a chuva passar, um diálogo interessante surgiu:

-Então, podemos sair?

-Não. De onde vocês vieram? E o que vieram fazer aqui? São espiões de que parte do mundo? Entreguem seus passaportes e dispam-se. A partir de agora seus direitos diplomáticos estão suspensos até uma definição mais clara do porquê de estarem aqui.

-Espera, não é nada disso…

Mas é claro, a realidade é muito mais interessante do que o que se passa na minha cabeça e o diálogo real foi este outro:

-Então, podemos sair?

-Um momento. De onde vocês são? (em um inglês bastante quebrado)

-Do Brasil…

-Kiki?

-Perdão?

-Kiki, não? Real Madrid… (com um sorriso imenso no rosto)

-Isso, Kaká! Ele é brasileiro… Alias, a gente viu que a rua ai da frente chama rua Brasil…

-Kaká, Ronaldo, “Ronaldino”. Pato não é bom… É fraco. Rua Brasil! Isso mesmo. Holanda não merecia ganhar [do Brasil na Copa]…

-A chuva parou, vamos lá?

O tempo desse diálogo foi o suficiente para dois outros militares se arrumarem e se posicionarem junto ao túmulo de Yasser Arafat, de certa forma dando um ar turístico ao lugar. Tudo arquitetado para nos entreter, já que quando chegamos não havia ninguém ali. Escoltados por outro oficial, visitamos a mesquita do local e em seguida nos dirigimos à saída.

Na hora de ir embora, ficamos presos por ainda mais tempo aprendendo sobre outros lugares interessantes em Ramallah e trocando histórias e provocações em uma mistura de árabe, inglês e futebolês. Algumas fotos depois, para quebrar o gelo com a polícia local, seguimos nosso rumo em direção a estação de vans que nos levaria à Jericho. Da janela de uma delas, nos despedimos da Ramallah verdadeira, sem encontrar nem sinal da ideia de Ramallah que vivia em meu pensamento.

Túmulo de Yasser Arafat
Rua Brasil, em Ramallah. Placa com dizeres de Lula e Abbas
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