E como é que eu nunca vi esse mapa antes?

Mapa de Jerusalém. Fonte: Ir-Amim

A motivação por participar nesse tour veio do meu contato quase acidental com esse mapa. Claro, o fato de eu atualmente residir em Jerusalém também me impede de ficar anônimo em algumas questões, mas normalmente prefiro escrever sobre outros assuntos. Dessa vez, eu encontrei um ponto tangencial entre o chamado conflito do Oriente Médio entre o Estado de Israel e um futuro Estado Palestino e uma série de problemas estruturais e sociais do resto do mundo, principalmente do famoso mundo em desenvolvimento.

Coloquei o despertador para as 7 horas da manhã. Aparentemente à toa, já que o ônibus sairia somente as 9:30h, mas atribuo as horas de sono perdido à ansiedade em participar da experiência. Por meio de uma organização chamada Ir-Amim (cidade dos povos, em uma tradução livre do hebraico), um grupo de mais de 30 pessoas foi convidada a participar de uma verdadeira aula in loco sobre as questões políticas, sociais, demográficas e geográficas que inundam a cidade de Jerusalém em meio ao conflito.

A proposta principal do tour é discutir a falta de planejamento urbano e social nas regiões de instabilidade e indefinição da região oriental de Jerusalém até a Cisjordânia (West Bank). De volta ao mapa, isso significa da linha verde (definida em 1948 pela ONU) em diante, com o foco mais direcionado à região abrangida pela linha azul (pós guerra dos 6 dias), atual linha municipal de Jerusalém sob responsabilidade do Estado de Israel. Atualmente, na região, dificilmente alguém não reconheceria a região entre as duas linhas como Jerusalém, mas a comunidade internacional em teoria não as reconhece.

De ônibus fretado, tive a oportunidade de ouvir ao longo de todo o caminho a experiência e opinião de Eran, especialista no conflito do Oriente Médio com ênfase em estudos do Islâ pela Universidade Hebraica de Jerusalém e representante da Ir-Amim durante a aula sobre rodas. O primeiro bairro visitado foi Gilo, de onde se pode avistar a cidade de Bethlehem (Belém), um pedaço da “fronteira” com a Cisjordânia (linha vermelha no mapa) e alguns assentamentos judaicos e árabes do lado de lá da cerca.

Nesta região, até 6 meses atrás, um muro de concreto de 2 metros de altura protegia os moradores de Gilo contra disparos vindos da região de Bethlehem e Beit Jala. O muro foi retirado com a declaração do chefe de inteligência do Estado de Israel dizendo que não vê uma ameaça real vinda desta região para os próximos anos. A ação é um importante posicionamento e acende uma luz de confiança e respeito entre vizinhos que por tanto tempo têm se enxergado apenas como inimigos (três explosões em ônibus durante a segunda intifada são atribuídas a palestinos que entraram na área oeste de Jerusalém por Bethlehem).

Vista de Gilo para a estrada que divide Har Gilo, BethLehem e Beit Jala

Ao mesmo tempo, a linha que divide o território israelense da Cisjordânia (representado pela linha vermelha do mapa) é bastante visível da altura de Gilo. Alternam-se entre cercas de arame e muros de diferentes alturas, dependendo da periculosidade considerada na região. Com a possibilidade de dois estados “cada vez mais próxima”, as questões consideradas micro estão ganhando cada vez mais espaço nas discussões territoriais de Jerusalém e de tempos para cá não há mais sinais tão visíveis de um conflito constante.

A viagem continua alternando olhares atentos pela janela e passeios a pé por entre bairros judaicos e palestinos. É interessante entender o que representa um assentamento. Não estamos aqui falando de meia dúzia de pessoas vivendo temporariamente em tendas ou moradias simples, apenas fazendo um protesto ou vivendo ali por teimosia. O que se vê são bairros gigantescos, extremamente desenvolvidos e estruturados com casas, ruas, comércio e etc. Alguns deles acabam virando verdadeiras cidades, com dezenas de milhares de moradores.

Pouco tempo depois, cruzamos o bairro palestino de Beit Safafa em direção a uma das mais novas construções de maioria judaica da região, Har Homa. O novo bairro está apoiado em uma das várias montanhas que desequilibram o território entre a linha verde e azul do mapa e impõe-se com construções que alimenta dezenas de prédios altos e um planejamento exemplar. Infelizmente, Har Homa fica entre dois bairros palestinos e é uma das questões que alimenta – com ou em razão – o sentimento de que há uma atuação ativa e intencional de recortar os territórios para dificultar a separação entre os dois estados no futuro.

Do outro lado, de Sar Bahir, pode se observar a imposição de um bairro de maioria judaica, distinto pelo seu desenvolvimento e imponência em meio aos dois bairros árabes, muitas vezes tratados diferentemente pela municipalidade de Jerusalém. Um dos grandes objetivos da Ir-Amim é garantir esforço  e investimento igualitário por parte da prefeitura  entre as diferentes regiões da cidade, sem qualquer tipo de discriminação.

A direita, Har Homa. Ao fundo Beit Safafa.

Pode-se observar que ao longo do mapa, o que está em amarelo é de maioria árabe/palestina e em azul judaica/israelense. A área entre a linha verde e a linha azul é de 70km2 e foi originalmente “planejada” em algum momento após 1967, por um comitê formado apenas de políticos e militares. A composição deste comitê explica também a falta de planejamento de diversas áreas, seja ela intencional ou não. A linha vermelha que divide Jerusalém da Cisjordânia possui aproximadamente 200km de comprimento, sendo maior que o perímetro de todas as fronteiras de Israel.

Obs: No site da Ir-Amim pode-se encontrar uma infinidade de materiais, textos e mapas sobre a questão específica de Jerusalém. Este é apenas o primeiro de uma série de alguns textos sobre o tema.

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