Shame on you Brasil – Violência

Na Índia tem pobreza. Muita. Tem também desigualdade social. E muita. Tem uma infinidade de problemas estruturais e sociais, como transporte público ineficiente e serviços de saúde precários que não atendem a maioria da população. Tem pedintes na rua, crianças desnutridas, pessoas vivendo diariamente em condições deploráveis de moradia e muitas delas sem nenhuma fonte de renda. Tem déficit de acesso à água limpa, para consumo ou para banho e tem também altíssimos níveis de corrupção.. Mas não tem violência (pelo menos não da forma como estamos acostumados), e isso muda tudo.

Muda porque se não há violência, há oportunidade. Oportunidade de experienciar as mais diversas situações sem a barreira do medo. E sem medo é possível pensar, criar, se expor e não se preocupar com uma besteira que é a violência. Não se preocupar com sua própria segurança é um sentimento libertador que talvez somente os brasileiros e latinos, já acostumados com a violência, podem sentir a fundo quando expostos a uma situação diferente da vivida em seus países.

Passei muito tempo tentando entender os porquês da violência no Brasil. O porquê do brasileiro contar com tanta normalidade as situações cotidianas as quais somos expostos, como se fizesse sentido. E pra explicar que um assalto é uma coisa normal? Que sim, de vez em quando, assassinatos brutais acontecem pelos motivos mais banais e que do noticiário escorre sangue diariamente. Que não, no Brasil não tem esse negócio de voltar de madrugada andando sem pelo menos pensar que algo de ruim pode acontecer.

Na primeira conversa, tento explicar que tudo isso é normal, e que apesar de estarmos milhões de anos à frente da Ìndia no quesito qualidade de vida e desenvolvimento, pecamos – e feio – no quesito violência. Digo isso sem receio, acreditando conhecer um pouco da realidade social brasileira, que caminhamos para um futuro muitíssimo mais promissor que o da Índia, mas somente se vencermos os desafios impostos pela violência.

Se critíco na minha cabeça a sociedade karmática indiana*, por sua estagnação e fácil aceitação das coisas como elas são (“o pobre é pobre por que é pobre, o rico é rico por que é rico. E tudo bem”), critico também a brasileira por sua cultura de fácil adaptação. “Essas coisas acontecem mesmo”, “a violência esta arraigada na cultura brasileira, não há mais o que fazer” e “o problema da violência é a desigualdade social e a pobreza”.

Quanto a esta última afirmação, eu afirmo sem receio que não. A violência não é uma consequência natural da pobreza e/ou da desigualdade social. Pobreza não gera violência. Com certeza há correlação estatística, mas chega de acreditar que o simples fato de alguém estar em situação de pobreza a transforma em um bandido ou algo do gênero. Da Índia carrego confusos sentimentos de quem sabe que estamos em direção a um caminho positivo, mas que continuamos diariamente a sofrer e pecar aonde não temos razão para fazê-lo.

*tema para um futuro artigo…

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