Por que eles querem que eu fique (2)

Lista de documentos

Sem opção. De volta a Hyderabad. 15 horas de viagem para tentar resolver um problema um tanto quanto contraditório: ir até a imigração solicitar a minha permissão de residência na Índia para, com ela, poder deixar o país. Apesar das possíveis complicações disso tudo, seria uma típica experiência indiana e uma oportunidade de passar um tempo a mais por aqui.

No trem, dois novos amigos disseram para eu ficar tranqüilo, afinal, Hyderabad e o escritório da imigração são conhecidos por sua corrupção e eu não teria problemas. Até tentei explicar que eu não era lá muito chegado em corrupção, dado o mal que isso faz para o país, mas eles estavam mais interessados na minha pessoa do que na minha história ou nas minhas falas.

Nada mudou em Hyderabad. A mesma poluição, mesmo barulho, mesmo trânsito e a mesma loucura que eu tanto gostava. No primeiro dia fui orientado a não ir ao escritório da Imigração, pois eles estavam em recesso. No segundo fui atendido apenas para receber a cartilha com todos os 12 documentos que deveria entregar, mais uma multa de U$30,00 por me registrar atrasado. Independente do fato de eu estar fazendo isso tudo apenas para conseguir uma permissão para deixar o país, eles não se mostravam nem um pouco abertos à discussão.

Azar. Aproveitei os dias na cidade para rever amigos e lugares que marcaram minha estadia por aqui. E claro, correr atrás de um lado para o outro em busca dos documentos. O antigo apartamento no qual eu morava agora estava vazio. Aparentemente o novo inquilino deu um golpe de mais de 200 mil rúpias e desapareceu.

Na imigração me solicitaram todo tipo de documento, muitos dos quais eu não possuía e não conseguiria arranjar tão rápido. Tentei explicar que todo esse esforço era apenas para conseguir sair do país, mas os burocratas têm um certo dom em ignorar todo e qualquer tipo de informação relevante, porém fora do programado. Assim, a Internet, o Word e a criatividade foram meus grandes aliados na obtenção – e produção – de alguns dos documentos solicitados.

Com tudo entregue, esperei mais de quatro horas para descobrir que o meu arquivo havia sido esquecido em uma gaveta qualquer, quase perdido. Após encontrarem minha papelada (furada e amarrada com um barbante colorido ao invés de grampos ou clipes), não mais que 15 minutos se passaram e eu estava livre: permissão para residir na Índia, logo, permissão para deixá-la.

Cinco da tarde recebi a papelada, seis e meia estava já embarcado em um ônibus qualquer em direção às praias de Goa. Afinal, meu vôo estava reservado para dali a quatro dias e não havia absolutamente mais nada de burocracia para resolver. Era hora apenas de aproveitar minhas últimas horas no país que mais me provocou na vida. Até agora.

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Um pensamento em “Por que eles querem que eu fique (2)”

  1. Você escreve muito bem. Não há como não ficar ligada em suas aventuras , onde o suspense e o relato estão na medida perfeita. Parabéns!

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