A lua, o sol e eu. Vivência numa pequena vila

 

Lua.

Às vezes eu me esqueço da existência do sol, da lua e das estrelas. É uma pena. Esqueço também da beleza da simplicidade, de como as coisas não são exatamente o que é possível ver e compreender. Que há muito mais construção psicológica e, por que não, sociológica sobre o que de fato posso enxergar. Foi com essa impressão que retornei de um fim de semana em uma vila chamada Purushwadi, 300km afastada de Mumbai.

Não fui sozinho. Nos encontramos as sete horas da manhã na estação de trem. Estrangeiros e indianos, acostumados a uma vida completamente urbana, unidos para descobrir os segredos da vida em uma vila agrária tradicional no interior do estado de Maharastra. O trem lotado expõe o movimento pendular diário dessa linha, que conecta a capital com o interior. A linha vai apenas até Kasara, e de lá 3 jipes carregam os urbanóides por entre estradas muito mais bem conservadas do que era de se imaginar.

Por todos os lados, agricultura. Organizada, desorganizada e diversificada. A viagem de quase 2 horas atraca finalmente em Purushwadi, onde moradores locais nos recebem com o som de tambores e a pintura de um ponto vermelho em nossas testas. A proposta do fim de semana é vivenciar um pouco da vida cotidiana da vila e celebrar juntos a chegada do festival Holi, que comemora a mudança de estação tradicionalmente com guerra de água e cores extraídas das plantas.

Sentamos para almoçar divididos entre algumas casas feitas de barro, cimento e cobertas por telhas bem estruturadas. Energia elétrica não há, mas o pequeno chula (pequeno forno a lenha dentro de casa) esquenta a comida típica. O prato de metal apresenta o desafio de hoje: algo com batatas, espinafre preparado com ervas locais, lentilhas mergulhadas em um líquido amarronzado e chapati, o pão que salva todas as minhas refeições.

À tarde, um banho de rio. Sem mais. A tarde toda foi destinada para um mergulho de admiração num pequeno rio que cruza a vila. A água não é potável, nem transparente, mas vem há tempos servindo à comunidade local e abastecendo caixas de água por toda a região. A hora de sair do banho de rio é determinada: vamos ver o pôr-do-sol. Nada mais justo, afinal não é todo dia que um bando de urbanoides se dá ao luxo de apreciar a beleza natural que está ai.

Foi quase uma escalada, mas valeu a pena. De um lado o sol se põe vermelho, sem raiva, e dá adeus ao seu compromisso com o dia, enquanto do outro, a lua, adiantada, mostra a que veio e que não vai nos desapontar com sua luz e brilho durante a noite. Lua cheia. Coisa mais bonita. Iluminação garantida para o espetáculo que é a noite no meio do campo, no “meio do tudo”.

Uma fogueira se acende em segundos e queima um pedaço pequeno da colheita. Simbolismos sem clara explicação, mantidos por tradição para o Holi. No dia seguinte, a comunidade se prepara para a guerra. Não como estamos acostumados. Sem ódio, sem vencedor ou perdedor. A vila toda – principalmente jovens e crianças – carrega baldes, garrafas e copos de metal com água e pó colorido, à procura de um alvo fácil para colorir. Em 10 minutos, estabelece-se o campo de batalha e estamos todos ensopados, coloridos e entretidos em garantir que cada um de nós tenha a oportunidade de participar da brincadeira.

Entre as atividades, outra competição. Três pedras de diferentes tamanhos estão para ser levantadas pelos mais fortes da vila. As crianças se divertem com as duas mais leves, mas os adultos se desafiam e exploram diferentes técnicas para levantar a terceira. Não pude deixar de tentar, e junto a outros dois, fui dos únicos a vencer o desafio. Saio da vila com a moral alta, e todo mundo leva o resultado na brincadeira.

Com uma camiseta a menos e imundo, começo a me preparar para deixar a vila. É hora de retornar a minha realidade, a meu punhado de escolhas que me afasta fisicamente de tudo isso, mas que com certeza guarda essa história toda em um lugar muito especial. Eu sou um urbanoide, um cidadão da cidade. Mas com um certo apreço pela vida rural, com uma certa paixão pela simplicidade.

 

Levantamento de pedras
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