Burocratas da Alegria

– Senhor, tenho uma pergunta… Senhor?

Foi assim que começou o dia. Ignorado. Em seguida ele até respondeu, mas não pra mim.  Estava eu e um amigo na fila do ministério de assuntos internos em Nova Delhi, na parte de imigração, para resolver alguns problemas com o visto. E pelo visto, teríamos problemas pela frente.

Na primeira sala, mais de 50 pessoas dividiam alguns poucos espaços de um sofá empoeirado à espera de sua vez. Duas cabines se pronunciavam de tempos em tempos e movimentavam a dinâmica das pessoas por ali. Mas para ter uma chance de ser chamado, tivemos que antes descobrir a existência de uma pequena mesa com o encarregado da sala, que distribuía senhas de acordo com sua necessidade (e de acordo com seu humor). Eu não peguei senha, pois estava apenas de acompanhante, e isto me custou invisibilidade perante todo o sistema.

Algum tempo depois o número foi chamado e o direito de ser atendido foi-nos concedido. Em uma breve explicação do caso, recebemos um novo papel com uma permissão para passar à segunda fase: dar entrada ao pedido. Como não tinha papel algum em meu nome, fui impedido de adentrar o local, enquanto meu amigo descrevia a complexidade de seu caso em 5 minutos, no meio do corredor para um encarregado sem muito interesse em sua pessoa.

Funciona assim: depois da entrada neste local, o solicitante recebe um envelope selado com sua sentença e deve entregá-lo a FRRO, órgão responsável pelos assuntos relacionados a estrangeiros. O envelope não pode ser violado e deve ser entregue o quanto antes para dar continuidade ao processo. E foi então no dia seguinte, na sala de espera da FRRO, que surgiu a idéia de criar os Burocratas da Alegria.

Eu explico. Durante seis horas, ficamos aguardando o processo todo acontecer. As 8h30 da manhã o envelope foi entregue, aberto, analisado e redirecionado para que se cumprisse a ordem do que estava ali designado (detalhe: em nenhum momento nos foi informado o conteúdo daquele envelope). Fomos instruídos a aguardar ali mesmo, pois a qualquer hora o veredito poderia sair. A papelada estava encaminhada, teoricamente sendo analisada em diversas instâncias, e em seguida seríamos informados dos próximos passos. Sem informações ou respostas do processo, tentamos extrair alguma informação e fomos informados que agora era hora do almoço. Assim que o horário terminasse, seriamos os primeiros a serem atendidos.

Na volta, com a papelada assinada três vezes e cheia de novas informações, fomos informados que estava faltando um comprovante de residência. Detalhe: a proposta era expandir um visto de turismo para elaborar um projeto de free lancer por aqui ao redor da Índia, sem endereço fixo. De qualquer forma conseguimos que o encarregado abrisse mão do comprovante e estampasse o novo carimbo no passaporte. Resultado: nem um dia a mais concedido.  Desde o dia anterior a sentença já estava determinada, e mesmo assim fomos obrigados a passar todas as instâncias de uma burocracia desorganizada por mais de 8 horas.

Então pensei: nessa sala bem que podia ter umas pessoas fantasiadas de palhaço tirando sarro da gente e da situação. Rindo um pouco da desgraça que é estar sentenciado e mesmo assim ter que continuar um processo de tratamento, sem necessariamente acreditar em qualquer tipo de esperança. Um grupo de burocratas da alegria disposto a tornar a experiência toda um pouco mais divertida, mais prazerosa e bem humorada. Imaginei um homem de terno, gravata e bigode cobrando documentos absurdos de cada um de nós na fila de espera. “A senhorita trouxe o seu atestado de chulé?” ou “o número do senhor é raiz de 127 vezes o número de pessoas nessa sala, somente se você trouxer um pássaro rosa do alto da montanha” tocando buzinas e cutucando os reais burocratas por ali.

Na fila de entrada poderiam tentar convencer as pessoas a desistirem do processo, oferecendo produtos e serviços desnecessários e na saída estariam ali também para consolar os derrotados. Tocando músicas de fanfarra e propondo jogos entre solicitantes e burocratas. E na hora de ir embora, o merecido nariz de palhaço.

 

 

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