Um outro olhar sobre o Taj Mahal

Olhei para baixo e, junto ao meus, encontrei outros 22 pares de sandálias e sapatos que se agarravam ao pouco atrito do chão sujo e agora molhado. Olho para cima e os poucos ventiladores servem de estante para os afortunados que encontraram um lugar para sentar e resolveram dar um pouco de alívio aos pés, colocando seus sapatos nas pás próximas ao teto. Pra relaxar um pouco no meio do aperto, um cidadão resolve que acariciar meu braço esquerdo é um excelente passatempo para a viagem de mais de três horas que me levaria a Agra, cidade natal do Taj Mahal.

A história começa comigo perdendo um trem. Sai de casa no horário certo, peguei o metro para a estação certa e de lá tomei a decisão errada: economizei um passeio de rickshaw (de 20 rúpias = R$0,70) por acreditar que a estação de trem estava a apenas 5 minutos andando. Estava errado. Depois de correr por mais de 5 minutos, exausto alternei entre caminhadas rápidas e pequenos trotes na desesperança de ainda sim conseguir pegar meu trem. É claro, todos os trens na Índia sempre atrasam, mas esse resolveu sair exatamente no horário. E quando alguma coisa sai da ordem por aqui, é bom preparar o humor.

O próximo trem saia em 10 minutos e custava 50 rúpias (mais ou menos U$1). Na classe geral, divido meu espaço com mais de 300 companheiros de vagão que se amontoam e a cada parada disputam uma fresta na janela de onde possam cuspir e devolver ao meio ambiente um líquido amarronzado.  Invejo à distância um rapaz que se alojou na grade de bagagens, agora lendo tranquilamente uma página de jornal com os pés para cima, a poucos centímetros do teto.

De tempos em tempos a configuração dos passageiros sofre uma reviravolta e aparece um novo personagem. Depois dos dois transexuais vestindo sarees acharem muito engraçada a minha existência, uma mulher sozinha cruza todo o vagão tocando tambor e cantando uma melodia relaxante em meio a todo o caos. Crianças surgem do chão e percorrem um mar de pernas em busca de seus pais. Encostado na porta do banheiro, compartilho uma seleção de odores com meus colegas e me preparo pra descer.

Sem informação exata de qual estação estava, calculo a hora de descer no relógio e acompanho a movimentação. Se eu for arrastado para fora do vagão é sinal de que estou no lugar certo. Mal desço do trem e já me são oferecidas mais de 10 opções do que fazer na cidade, mas tenho tempo reduzido e tenho que ser afiado nas escolhas.

Simpatizo com um rapaz e decido dar uma chance. Com o preço começando em 500 rúpias só para ver o Taj Mahal, fecho o preço oficial na banca do governo: 250 rúpias para Taj Mahal, almoço, Red Fort e carona de volta para a estação de trem. Apesar de não parecer oficial, o rapaz da barraquinha do governo me garantiu ser confiável e fui em direção ao TukTuk* onde os dois irmãos, Srar e Papku, aguardavam ansiosos pela minha chegada.

Da beira do rickshaw recebo instruções duras do oficial: 1)Sempre vou e volto com o mesmo Tuktuk do mesmo lugar em que ele me deixou; 2)Cuidado com furtos e trombadinhas na região; 3)Nada de guias, eles cobram caro e atrapalham seu sossego; 4)Nada de souvenirs pelo do Taj, o motorista me levaria em uma loja oficial do governo – “good price”; 5)O almoço seria num lugar “seguro”, claro, parceiro do governo.

Eu que adoro Tuktuks logo puxei assunto e vi que não seria uma conversa muito fácil. Meu híndi anda enferrujado, meu telugu de nada adianta por aqui e nosso inglês está longe de ter algo em comum. Mas sou capaz de entender orientações básicas que ele tinha pra me oferecer. Algum tempo depois ele perguntou me nome mais uma vez e respondi: “I told you!”. Bastou. Pelo resto do dia ele continuou me chamando de algo próximo à “Aitoudio” e eu achei engraçado o suficiente para não corrigir.

Quanto ao Taj Mahal: de fato é incrível, os jardins dão um sossego merecido e a beleza faz a vista ficar úmida. Quanto mais de longe mais bonito e imponente. Para entrar é preciso tirar os sapatos, mas em compensação eles oferecem na entrada uma sapatilha de médico vermelha pra você andar por lá (sapatilha esta que por muitos dias depois foi rebatizada como meia, devido à falta delas em minha mochila).

Dentro do mausoléu, pequena decepção: não tem lá muita coisa pra ser vista e de nada impressiona o interior. Mas a dica é trazer uma pequena lanterna pra cá. As flores de pedra na parede se iluminam por dentro se você aponta uma fonte de luz bem próxima. Tive a felicidade de agradecer ao meu Nokia de U$15,00 com lanterna embutida que me proporcionou o espetáculo.

De fora é mais fascinante. Em busca da foto perfeita e estilizada, pisei em um côco de pomba, nesse momento já sem minha sapatilha vermelha. Vou dizer que praticamente não me incomodei e percebi o quão adaptado ao país estou. Limpei o pé nas bordas de uma escada maravilhosa e fitei a porcaria da foto que tirei. Faz parte, não sou fotógrafo, sou só azarado.

Do Red Fort a vista é incrível e o próprio forte é impressionante. Lotado de macacos agressivos, passo mais uma vez são e salvo pelo corredor polonês que eles costumam formar. Minha sugestão é vir aqui antes de visitar o Taj. A vista de longe é bela e da vontade de ir ver o mausoléu de novo.

De volta a estação confiro o horário do trem e, claro, atrasado. Mais de uma hora e meia depois entro no trem e causo um grande alvoroço no vagão ao mostrar minha passagem no Laptop. Esqueci de imprimir e achei que seria engraçado mostrar a versão virtual. Instantaneamente fiquei amigo da minha “cabine” do trem. Uma família com duas crianças. Preciso confessar que me conectei de verdade com esses dois pivetes. Ambos estavam aprendendo inglês na escola e resolveram me impressionar.

Para o resto do trem, Abhiskar repetia que não sabia falar híndi, somente inglês. Tirava sarro de todo mundo enquanto lutava Kun Fu comigo. Comprou um pacote de batatinha só para me ajudar com o troco e acordou sua vizinha a tapas para jogar a embalagem pela janela. No fim, trocamos presentes e promessas de contato. Desde então tenho no braço direito uma pequena pulseira vermelha e preta de Sai Baba e uma boa lembrança do que deveria ter sido apenas uma visita ao lugar mais famoso da Índia.

*Tuktuk é o apelido mais que carinhoso para os rickshaws, transporte mais comum aqui na Índia e motivo de um post só sobre eles.

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6 thoughts on “Um outro olhar sobre o Taj Mahal”

  1. Olá Alexandre,
    Gostei da transparência , simplicidade e emoção expressas em sua visão do mundo que o cerca. Fantástico a fluidez do seu pensamento. Gostei muito. Sempre trabalhei com os menos favorecidos em morros e creches da comunidade e me encanta a doçura, a ingenuidade e capacidade de viração própria dessa criançada. Ainda que vc se referencie como um péssimo fotógrafo, vou discordar. Seu relato fotografou imagens incríveis que se revelam na mente de quem os lê. Parabéns!

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  2. Alex,

    Sua crônica me levou junto na sua jornada, parabéns! Ah, a foto que abre a matéria fala muito… Deve ser a mesma que milhões de pessoas captam, mas os seus pés…!

    Abs

    Ivan

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  3. Obrigado pelos comentários! Em breve vou começar uma nova experiência por aqui e espero conseguir transmitir um pouco disso tudo pelo blog!
    abraços!

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