Desabrigados e desorganizados

Nem sei por onde começar. Fui convidado a participar de uma reunião entre uma porção de Ong’s e representantes do governo de Andhra Pradesh sobre desabrigados. Não é exatamente o tema que venho pesquisando por aqui, mas migração esta sempre relacionado a quase qualquer tipo de carência de infra-estrutura. Sendo assim, muitos dos migrantes são também desabrigados e então resolvi ir.

Na entrada do prédio da Great Hyderabad Municipal Corporation (GHMC), conversei por alguns minutos com um rapaz que me garantiu já ter viajado o mundo, e que estava indo para o Brasil na próxima semana. Como meu contato para a reunião acabou demorando, foi tempo o suficiente para perceber que toda a história era mentira e ele estava tentando me impressionar. Vai lá saber por quê.

Na entrada da sala de reuniões, mas de 50 pessoas posicionadas em uma sala com microfones individuais como a gente vê nas conferências da ONU, mas com um visual bem mais antiquado. O mediador do evento era um senhor de barba branca e pelo menos 60 anos de idade, cuja simpatia e simplicidade me serviram como um belo convite a relaxar e ficar à vontade na reunião.

O encontro como um todo foi uma verdadeira bagunça. Primeiro a sala inteira – agora mais de 70 pessoas – teve a oportunidade de se apresentar pessoalmente, dizendo nome e organização, na maioria das vezes fora do microfone. E claro, cada pessoa atrasada tinha a sua vez garantida para facilitar a dinâmica do negócio. Claro que quando eu me apresento, fica claro que ninguém esta nem ai para o que estou fazendo lá, só querem saber de que país eu sou e o que estou achando da Índia.

Com 40 minutos de atraso, inicia-se uma apresentação de PowerPoint em que o palestrante exige a aceitação verbal do público ao fim de cada slide. De repente, todos os presentes na sala se empurram para levantar de suas cadeiras apertadas. Aparentemente, alguém de grande importância acaba de adentrar a sala: é o encarregado da prefeitura sobre o assunto. A apresentação é interrompida e a platéia começa um bombardeio de perguntas, relacionadas ou não ao tema.

Do lado do encarregado, tudo vai muito bem. Ele repete diversas vezes para que ninguém se preocupe com dinheiro que tudo vai dar certo. Além disso, afirma que a partir de agora criança vai pra escola, idoso vai para asilo e deficiente vai para reabilitação. Como? Isso ele não precisou explicar, a platéia agora estava tão interessada em sua presença que relevou os detalhes e começou uma bateria de perguntas aleatórias.

Sabe como é gente importante, se as perguntas vão ficando mais complexas ou exigem uma resposta mais clarificada, é hora de ir para o próximo compromisso. “No problem, we will take care of everything”. Na minha frente, um celular com toque de cachoeira começa a tocar e interrompe a sessão. Sem menor ressentimento, a ligação é atendida e o som das vozes se mistura no ar. É o momento ideal para uma saída à francesa do encarregado.

A “ordem” é reestabelecida e o PowerPoint continua de onde parou. Zangado, o palestrante xinga o rapaz que estava passando os slides pois o serviço não estava à altura da pobre apresentação. Após uma constante mistura entre inglês e telugu* por toda a sua fala, é hora de abrir a discussão para as organizações presentes. Vou colocar de outra forma: deu-se início ao leilão social.

Explico: o governo resolveu apoiar financeiramente a construção de abrigos noturnos e definitivos para pessoas desabrigadas. A ideia é manter um abrigo para cada região de cem mil pessoas. Portanto, ali era o momento de colher parceiros e interessados em serem responsaveis por qualquer um desses abrigos, recebendo verba pública. Cada uma das pessoas que se prontificava a falar, oferecia ao mediador algo, seja em recursos, seja em boa vontade.

E todo mundo na sala querendo um pedaço dessa nova verba tão “no problem”. A frase que mais me encantou foi a de uma mulher que aparentemente gerencia uma pequena escolinha para crianças: “eu tenho já umas 40 crianças no primeiro andar, mas com essa verba a gente pode tentar construir um segundo andar e colocar uns desabrigados lá”. Fácil assim. Bom jeito de dobrar o número de beneficiários.

Entre pessoas de pé e gritando ao mesmo tempo, celulares causam de 5 em 5 minutos interferência em todos os microfones da sala, gerando um barulho quase ensurdecedor (mas acho que eu era o único incomodado daquela sala). O resultado final foi um monte de acordos verbais feitos em público entre pessoas que não se conhecem. Sem planejamento, sem orçamento detalhado, sem compromisso de datas.

Uma das pessoas que se manifestou, inclusive passou seu telefone pessoal para a sala toda para qualquer dúvida futura. Haja informalidade em um ambiente tão formal. Foi uma bela experiência de como funciona uma reunião entre governo estadual e Ong’s, mas não saí do encontro com a sensação que o problema dos desabrigados estava bem encaminhado.

 

*Telugu é a língua local falada principalmente no estado de Andhra Pradesh

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1 comentário a “Desabrigados e desorganizados”

  1. Cara, belo post. Crítico e ácido na medida. Se governo já é uma bagunça, Índia entaum…
    Taí uma experiência q eu não tive aki (me lembrou um poko as reuniões do Conselhão do Lula no Governo Federal – gente importante dando pitaco sobre algum assunto em tom meramente consultivo)

    Gostar

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