O dia em que meu avião quase caiu* – Promessas de ano novo

O ano começa e eu já estou na estrada novamente. Deixo a cidade de Kovalam, no estado de Kerala, no próprio dia primeiro com medo de que a distância da minha cidade possa me atrasar para o trabalho de segunda-feira. 16 horas em uma van são o suficiente para terminar algumas pendências, como terminar os dois últimos livros e escrever um pouco para o trabalho.

A direção era Bangalore, em Tamil Nadu, de onde pegaria um avião as 6h20 da manhã do dia 3, planejando passar a noite do segundo dia do ano dormindo no aeroporto. A ideia era economizar um pouco das minhas rúpias, pagando a tarifa promocional e trocando um hostel por uma noite de sono abraçada ao mochilão. Pois bem, a Índia tem – desde os atentados de 2008 em Mumbai – uma postura bastante complexa em relação à segurança. Assim, na entrada do aeroporto, fui impedido de entrar pois meu vôo era apenas para o dia seguinte.

Falei com todo mundo. Literalmente. Do mais baixo escalão da polícia ao coordenador geral do aeroporto, passando pelos órgãos de informação ao turista e os guichês de todas as companhias aéreas. Meu objetivo era descobrir qual era a política oficial de entrada no aeroporto, já que na minha passagem a única informação que constava era de que me era sugerido chegar pelo menos duas horas antes do vôo. Bom, eu estava seguindo àquela recomendação ao pé da letra e garantindo 14 horas de antecedência.

Usei todas as estratégias possíveis, dizendo que estava buscando a informação para que no futuro outras pessoas não passem pela mesma situação que eu. Sem sucesso, cada hora alguém inventava uma nova política de quantas horas antes de um vôo se é permitido entrar no aeroporto. Decidi então trocar minha passagem para um vôo noturno, e sem muitos amigos por ali querendo me atender, comprei a passagem online, na frente do guichê.

Com a nova passagem impressa, fui barrado novamente na porta do aeroporto, dessa vez porque o número do vôo não havia sido impresso corretamente. Bastou. Não para eu ficar estressado, mas para eu, que tenho certo receio de voar, começar a imaginar os diferentes sinais que estavam me sendo dados. Com isso na cabeça, tudo começa a mudar. Quando despachei minha mala, a alça ficou presa na esteira, como se minha bagagem não quisesse entrar na aeronave e meu assento foi aleatoriamente escolhido para fileira 3F (simbologias à parte, se o meu avião vai cair, prefiro estar no fundo e ter um impacto um pouquinho menor)

Eis que encontro um amigo alemão viajando comigo, e a primeira coisa que ele me pede, assim que me vê, é que eu inaugure seu caderno de recordações “daqueles que se foram e não mais serão vistos”. Detalhe: estava planejando ir visitá-lo em Delhi em duas semanas. Eu fui o primeiro a escrever, ou seja, era um caderno de recordações dos que se foram, somente com a minha assinatura, 1 hora antes de eu pegar o vôo que até minha bagagem se recusava a entrar.

O destino era tão certo e minha expressão tão óbvia, que as piadas dos meus amigos fluíam em todas as línguas, e na minha cabeça só um verso de Bohemian Rapsody: “I don’t wanna die, sometimes I wish I’d never been born at all”. Na frente do portão de embarque, aguardo ansioso mais alguma boa notícia e sem novas surpresas sou convidado a entrar no avião. O menor avião que já viajei, para não mais que 80 pessoas. Mais de 20 indianos alimentando o compartimento de bagagens à força, desviando das hélices expostas de uma aeronave aparentemente bem pouco confiável.

Por dentro, as poltronas de couro pouco conservadas me deixaram um pouco mais confortável, mas senti-me entrando em um ônibus de glamour duvidoso.  O barulho ensurdecedor me relembra os poucos momentos que devo ter pela frente e penso em todas as coisas suspensas no ar nesse começo de ano. Se pelo menos eu pudesse fazer algumas ligações conseguiria ficar um pouco mais tranqüilo. Por alguns minutos desligo da minha morte certa e sou convidado a uma conversa de elevador com meu colega de assento.

Quando conto a ele o que faço por aqui, os meses de pesquisa e as questões relacionadas a migração e pobreza, recebo seu comentário, curto e grosso, vindo banhado em sabedoria de um especialista: “Isto é tudo besteira. Essas pessoas fogem de trabalho de homem no campo para dormir e não fazer nada nas ruas de Hyderabad”. Curioso, instiguei a conversa e ouvi como os projetos do governo e das Ong’s não entendem a cultura básica de uma sociedade, querendo mudar coisas importantes como trabalho infantil e outras besteiras como direitos humanos.

Agora era certo, meu avião iria cair. D´us ou qualquer que seja a instituição que controla a morte havia juntado naquele avião a dicotomia que estava deixando o mundo tão confuso. E agora era hora de deixar essas questões para trás. Um problema na hélice, uma tempestade inesperada ou uma pane inexplicável ajudariam a tirar de cena dois importantes atores do caos atual: um representante da manutenção de como as estão e um idealista que só quer que as coisas mudem, sem uma certeza exata de para qual direção.

Enfim, a conversa segue o rumo mais ou menos esperado e no final ganhei uma carona de volta do aeroporto para casa: uma chance de prolongar a discussão e economizar mais algumas centenas de rúpias. Escapei com vida dessa experiência de “quase morte na minha cabeça”, mas foi um bom jeito de começar o ano. E talvez um sinal para continuar procurando um jeito de aproximar estes dois universos em 2011.

*Pelo menos na minha cabeça

obs: o senhor que conheci no avião já me ligou mais de 10 vezes para me oferecer café, um “emprego” e mestrado em medicina nas Filipinas para mim ou qualquer brasileiro (pela bagatela de 20 lakh rúpias = 45 mil dólares por 5 anos)

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1 comentário a “O dia em que meu avião quase caiu* – Promessas de ano novo”

  1. eu também prefiro sentar atrás para o caso de uma queda!!!!!!!! me identifiquei demais com seu texto de paranóico, não sabia que vc era assim também legal vamos viajar juntos (se bem que depois da temporada de aviões 2010eu não entro em um tão cedo)

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