21 horas pra escrever um livro

(esse texto esta um pouco mais longo que o usual, mas espero que seja interessante…)

E eu que entro em um trem de mais de 20 horas, sem saber exatamente pra onde vou e o que me espera no destino. Com certeza, parte dos pensamentos que me rondam a cabeça são negativos e não consigo me lembrar quando foi que eu mesmo me coloquei nessa situação. Alguém vai dizer que foi minha falta de atitude, minha timidez ou a dificuldade que tenho em dizer não às pessoas em quem confio.

Se eu tivesse que justificar o porquê de estar aqui, no começo de uma viagem aparentemente sem final, eu diria que o que me move – além das antigas ferrovias desgastadas por tantos trens diários – é a minha insaciável busca pela experiência. E como acredito que de nada vale experiência sem aprendizado, resolvi desafiar a mim mesmo: vou escrever um livro durante essa viagem.

O tema do livro não tem importância nessas primeiras páginas. A princípio, o livro vai se desenvolvendo ao longo do que a ferrovia for me contando, sobre não só a Índia e sua riqueza cultural, mas também sobre meu passado. E a escrita fica fácil quando sou confrontado a cada minuto com minhas maiores dificuldades.

Depois de mais de 3 horas, o almoço é servido. Sinceramente não posso dizer por quem, pois quem me ofereceu comida foi o companheiro da cama de baixo. Sem dúvida não faço idéia da procedência desse arroz amarelado, mergulhado em um curry qualquer que chega à minha cama sem embalagem nem apresentações, embrulhado em um pedaço de jornal e sem espaço para rejeições. O jeito é trazer esse objeto estranho para dentro do meu organismo, cutucando a comida como se provoca a um inimigo, estudando cada componente e tentando extrair o menos pior disso tudo.

Com as mãos amareladas pela falta de um garfo que me auxilie nessa disputa, vou as poucos espalhando a comida na tampa de tupperware em que me foi servido. Se como mais ou menos pode ser um fator decisivo para a continuidade da viagem. Deixo mais da metade do que me foi oferecido, tanto pelo sabor e apresentação quanto pelo receio do que poderia acontecer em seguida. E em um inglês arranhado, convenço meu provedor de que estou satisfeito com apenas um punhado de comida.

Quando pequeno, era conhecido na família toda por ser fresco para comida. Discordo dessa definição, afinal, nunca fui fresco com comida. Sou apenas um rapaz de paladar pouco aguçado que aprecia a simplicidade dos sabores cotidianos. Eu, que sempre fui difícil para escolher comida, já tive como prato favorito panqueca de espinafre que, por algum trauma ainda pouco estudado pela psicologia, não mais consigo comer.

Quando ia almoçar na casa de qualquer colega ganhava instantaneamente inimizade com sua mãe. O contrato era simples: se todos estivessem comendo algo considerado normal, havia algum tipo de comida menos sofisticada destinada a minha pessoa. E no fundo, eu jamais me importei de estar em uma mesa de jantar e sair insatisfeito. O que mais me incomoda é a incompreensão das outras partes em não aceitar minha decisão de negar comida.

Na casa dos amigos mais próximos, uma gaveta ou armário abriga as minhas preferências alimentares. Não porque eu tenha algum problema e necessite de tratamento especial, mas por que imagino o tamanho da frustração semanal que causava a todas essas mães. Ainda sem falar da minha.

Vou ao encontro de dois vagões em busca de um banheiro. À esquerda uma pequena placa indica o “toilet” e no lado oposto uma boa noticia: “toilet western style”. Já nem me preocupo mais com banheiros por aqui, afinal, carrego papel higiênico por toda parte. Tenho sempre um rolo na mochila e aprendi a espalhar dosagens emergenciais na capa da minha máquina fotográfica e na minha carteira. Afinal, quando meu corpo perde a batalha contra o curry, é bom estar preparado.

As janelas do trem não são altas o suficiente para que eu possa acompanhar a paisagem da minha cama, por isso faço um acordo comigo mesmo de observar o exterior do trem de tempos em tempos. Nas entradas de ar e saídas do ar condicionado posso ver ácaros e todo tipo de bactéria e vírus sem precisar de um microscópio. Deito virado de costas para tudo isso na inútil tentativa de preservar o que resta das minhas vias nasais. Sinto a brisa exageradamente gelada congelar meus pés descalços e conto os minutos para meu nariz começar a sangrar.

Cresci com praticamente três tipos de educação. A oferecida na minha casa foi baseada pura e simplesmente no amor. Acho que esse é o tipo mais eficiente de formação do caráter de uma pessoa, e me preparou para, não só tolerar, como amar a quase todo tipo de relacionamento. Na escola fui tratado como parte de uma comunidade e desenvolvi o respeito aos poucos o sentimento de responsabilidade sobre o que estava à minha volta (com o tempo “a minha volta” foi se tornando mais extensa e complexa do que jamais eles poderiam imaginar).

Entre dores, derrotas e filosofia fui aprendendo aos poucos que mais importante do que vencer é aprender. Cair e se machucar é somente uma oportunidade para levantar e encontrar algum tipo de cura. Marquei minha adolescência com sangue no kimono, dormindo durante a escola na tentativa de me recompor de tantos machucados. Talvez por saber inconscientemente que meu corpo jamais teria a mesma potência no futuro, aproveitei cada segundo dessa fase até quando não pude mais.

O ombro direito começa a doer. De tantas vezes que já saiu do lugar, procuro agora sem grande sucesso encontrar um novo lugar para abrigar meu corpo no espaço restrito que me foi oferecido. Se viro para um lado, sinto meu pulmão ser preenchido por uma infinidade de maus elementos cujas vidas dependem da minha, e se me ajeito e recuso abrigo às doenças, meu ombro faz questão de relembrar uma fase de glória e conquista. Deixo essa questão quase logística para depois, é hora de observar o que a Índia tem para oferecer da pequena janela próxima ao banheiro.

Se eu citasse apenas a paisagem bucólica e rural estaria sendo injusto e pouco transparente com o que venho encontrando por aqui. As vacas não se restringem à janela do meu trem – passando às vezes a uma distância assustadoramente perigosa –  e estão presentes em muitos momentos da minha vida por aqui. Na esquina de minha casa em Hyderabad, cumprimento todo dia a família de vacas que “pasta” no lixão do bairro e de noite me divirto com a família de porcos que vem para o arremate final do dia.

Ironia ou não, meu pai sempre criticou minha geração pela falta de contato com o campo, com a terra. Para explicitar seu argumento, sempre disse que nós não sabíamos muita coisa porque fomos ensinados que leite vem em caixa, e não da vaca. Como brincadeira, todas as vezes que via uma vaca tirava uma foto e mandava pra ele, dizendo que estava no caminho de me tornar uma pessoa melhor. Mas não aqui. Convivemos lado a lado, como iguais, aprendendo um com o outro.

Enquanto observo um pouco de vida pela janela, sou abordado por um rapaz interessado em saber quem sou. Quando explico de onde venho, posso ver em seus olhos um apreço que só se encontra por aqui. Provavelmente sou o primeiro brasileiro que Durga encontra. Se eu estivesse em seu lugar, provavelmente esnobaria meu interlocutor por um tempo testando sua idoneidade e em seguida me desinteressaria por história tão sem graça.

Pois bem, não é o que costuma acontecer na Índia. Em poucos minutos de conversa ganho sua admiração pelo simples fato de me apresentar como jornalista (se ele soubesse o que é ser jornalista na prática talvez não veria tanto glamour). Faço ele rir com  o convite para vir ao Brasil, tendo em vista que é mais rápido chegar no meu país do que no final dessa viagem. Em seguida, sua mulher e filho estão prostrados lado a lado ouvindo atentamente a cada palavra que pronuncio, com o mesmo olhar interessado, apesar da dificuldade de comunicação.

Volto ao meu pequeno escritório observado por alguns dos novos passageiros. É bom estar de volta, mas ao mesmo tempo começo a me sentir um pouco inquieto. Meu estômago dá indícios de que aquela punhalada de arroz não vai descer muito bem. Mas como poderia também? Procuro não pensar nisso e me concentro em observar o vagão onde passaria as próximas tantas horas.

Quando entrei no vagão B1 do trem East Cost de Hyderabad para Bhubaneswar, fiquei um pouco mais animado com a viagem. Desatento que sou, sentei em uma das duas camas da pequena subdivisória e cogitei a possibilidade de estar sozinho com todo esse espaço. Na primeira parada, outras quatro pessoas entraram na minha divisória e ingenuamente perguntei se estava tudo certo. Foi então que percebi que estava sentado apenas na cama de número 1, e que acima de mim estavam as camas 2 e 3 ainda não montadas. O espaço que acreditei ser destinado para mim foi de um minuto para outro dividido por 6. Fui orientado a ocupar a cama de número três, no “terceiro andar”.

Sem escadas, a estrutura metálica saída do teto foi quem me ajudou a alcançar meu espaço. Mochila primeiro e meu corpo ocupando o resto do colchão forrado de uma espécie de silicone barato. O tom azul calcinha – não tão claro e limpo como recordava – parece ter sido a cor escolhida por quem quer que seja para a decoração dos vagões. Uma cortina de mesma cor com detalhes florais em marrom garantem a privacidade de cada 6 passageiros. Minha garrafa d’água vai para uma pequena tela colada à parede, por instrução do meu vizinho do terceiro andar. Cobertor de lã com borda de cetim, travesseiro branco do tamanho da minha mão e um jogo de cama embalado em um envelope pardo. Agora sim me sinto parte deste trem.

O “coichê” foi meu companheiro noturno por muito tempo. Alias, houve uma época em que tive sérias dificuldades para dormir se não fosse com esse cobertor. Às vezes tinha que levar aquele trapo inimigo dos asmáticos para viagens ou noites fora de casa para um sono de qualidade. Marrom e preto, com fiapos emaranhados em branco, meu antigo cobertor em nada iria ajudar essa situação.

Sinto que é hora de dormir, mas o sono não vem. Já me acostumei com a proximidade do teto, mas desço por alguns minutos para respirar um pouco de ar pela junção dos dois vagões. Dessa vez, com a porta aberta, pude de fato respirar um pouco do que passava a alguns tantos quilômetros por hora pelos meus olhos. No melhor lugar do trem estava Arko, jovem de 21 anos originário de Orissa, atualmente vivendo e estudando medicina em Pune. É difícil descrever como os relacionamentos interpessoais acontecem por aqui, mas aceitei o convite para trocar de lugar e receber todo o vento nos cabelos que insisto em manter longos por medo e desconfiança dos barbeiros locais.

Meia hora de conversa é o suficiente para garantir moradia em Pune a qualquer hora. Somos amigos então. Fácil assim. Claro que não tão sólida como as amizades que diariamente tenho que alimentar com os amigos de longa data, mas aparentemente o suficiente para preencher o vazio que de vez em quando atinge os que estão longe de casa. Falando em casa, um minuto depois Arko entra pelas cortinas espalhando um pó invisível e pede meus dados para contatos futuros. Sem cerimônia, sem segundas intenções, sem maldade.

As luzes se apagam. O resto do vagão continua aceso, mas a liderança de meu compartimento decidiu dormir, pois lhe faltam poucas horas até seu destino. Ele vai descer em Vishakhapatnan, umas das cidades mais turísticas desses lados da costa leste indiana. O motivo de sua viagem é nobre: férias com a família – aparentemente merecidas – depois de mais de quatro anos de trabalho ininterrupto. Sorte deles. Este senhor é o mesmo que me alimentou e de tempos em tempos verifica se esta tudo indo em ordem comigo.

Explico a ele que o ar condicionado não me incomoda, e que tenho cobertas o suficiente para descansar em paz. Só depois desta checagem o senhor se acomoda incômodo na cama que lhe foi destinada, sem distinção de idade e sem privilégios. Imóvel, metade de sua face fica exposta a luz do corredor dando destaque aos poucos cabelos grisalhos que lhe restam. Com as mãos desgastadas entrelaçadas no peito e os pés descalços a mostrar dedos cansados e machucados pelo tempo ele descansa. É hora de tomar conta de si próprio.

Decido fazer o mesmo. Aparentemente é noite lá fora e aqui dentro não há mais nada a explorar. Por um lado sinto uma ponta de derrota, por não ter concluído livro algum. Faz parte, há dias em que me forço a relembrar que é mais importante vivenciar do que registrar. E pra mim, cuja aflição do trem de 21 horas se transformou em uma experiência incrível de aprendizado, só posso me sentir realizado. E lembrar que o trem foi só o meio do caminho, a conexão entre o que vem antes e o que ainda esta por vir.

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9 comentários a “21 horas pra escrever um livro”

  1. show! para mim, uma das melhores coisas que a India me proporciou foram as longas viagem de trem, muitas delas na classe sleeper, mas outras, por falta de opcao, dormindo no chao mesmo, e é impressionante a generosidade das pessoas que estao em situacao pior que a sua! espero que esteja AMANDO a India!!! seu texto trouxe um aperto no meu peito, uma saudade gostosa de se sentir…

    beijos!
    Ke

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    1. Se cuida hermano. Compra um novo “coiche”, estoca chocolate na mochila e não perca o bom humor. Se a vida te dá uma porrada, usa seu braço esquerdo (já que o direito ainda sofre dos resquícios do passado) e devolve. E lembra que você está aí por que fez uma escolha….e nada na vida é mais valioso do q poder escolher. (eu assisti Matrix ontem e ainda to insipirado pela sabedoria hollywoodiana do Morpheus)

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  2. Os dois ultimos paragrafos me emocionaram Le!
    Aproveita ae , sao essas experiencias que vc vai levar dessa viagem que esta marcando a sua vida!
    Cresca ao maximo com esses fatos , aproveite essa simplicidade , e ate ingenuidade do povo, aprenda ao maximo , eu sei , q eh exatamente oq vc esta fazendo e que meus conselhos sao em vao!
    Tou com muita inveja das licoes q vc esta tomando….
    Cuida d estomago , quer q eu te mande uns pacotes d waffle?
    Deve estar magrelo e cabeludo neh!
    beijao
    saudades ja

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  3. adorei alex!
    a sinceridade e transparencia de como vc escreve, imagino as lindas fotos q vc deve estar tirando nessa viagem… quero vê-ls!
    admiro tudo o q vc está vivenciando, aprendendo, cresecendo… deve ser incrivel! parabens!

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  4. Alexandre, adorei ler seus relatos, vá em frente. Eu gostaria de ler sobre a situação da mulher indiana, aquela que dá duro mesmo. Para que possamos comparar com as nossas domésticas, balconistas daqui, que ralam nos ônibus, sustentam a família, cuidam dos filhos e tentam se divertir também. Outro tema interessante é a educação, a Índia deu um salto. Qual é a causa do milagre? tudo dá sempre certo no caos?!
    Agora um palpite: quem escreveu “eu sei mas não devia”, ” a gente se acostuma, mas não devia” foi Marina Colasanti.
    Um grande abraço,
    Mara

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  5. Alexito, lindos textos….você pode pensar que não começou a escrever livro nenhum, mas a meu ver estás enganado: eis aqui um belo texto para colocar no seu livro de relatos de uma viagem tão incrível…grande beijo, aproveita e se cuida, karen

    ps: vou transcrever uma passagem do livro ‘Tirando os Sapatos’, do Nilton Bonder, que acho que tem a ver com essa sua viagem: “O peregrino é alguém que se põe em movimento na vida por reconhecer que está numa encruzilhada. Uma vez nela, há duas atitudes a tomar: ficar parado, dizendo “bem-me-quer, mal-me-quer, o que eu perco, ou que eu ganho, quais são meus riscos?”. Ou pôr-se em movimento sem saber para onde ir. Esta segunda opção é a dramatização do peregrino: alguém que está emocionalmente pronto a se colocar em movimento, mas desconhece o rumo.”

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  6. Bárbaro, Lê!!! Sabe que acabei de editar um txt de um professor de Literatura sobre a viagem etnográfica de Mario de Andrade, O Turista Aprendiz, que vou publicar na revista Geo?
    vou te mandar o txt, acho que achei a maneira pra vc escrever pra mim!!!!
    bjks, sobrinho querido!

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