Pausa: Mumbai segundas impressões

 

Vista do apartamento - A favela que eu não fui ver.

A gente se acostuma, mas não devia.

Mumbai foi a primeira cidade que conheci na Índia. Foi lá que meu vôo aterrisou e ali construi minhas primeiras impressões desse país. Um mês depois, voltei à mesma cidade e fui surpreendido por um sentimento complexo. O objetivo principal da minha volta era conhecer a maior favela da Asia: Dharavi (onde foi filmado “Quem quer ser um milionário?”).

Antes de mais nada, preciso dizer que ainda estou processando a experiência. Não vou escrever agora sobre Dharavi, mas sim sobre minhas segundas impressões de Mumbai. Para mim, a cidade estava completamente diferente. Um mês de Índia depois, me senti retornando à Europa ou coisa do gênero ao andar pelas ruas da cidade. O que me soou bastante estranho foi como nesses últimos meses fui me adaptando – e me acostumando – com uma série de coisas que não deveria.

É engraçado, pois somente quando voltei à Mumbai reparei que a minha cidade, Hyderabad, praticamente não tem calçadas. E não estou dizendo que Mumbai tem as melhores calçadas do mundo, pois, pelo que lembrava, Mumbai também não tinha calçadas. Reparei também a quantidade de pedintes e moradores “de rua” que me surpreenderam na primeira visita e nesta segunda foram destacados pela comparação com minhas memórias não só da Índia, como também de casa. Em um dos guias que estava lendo, encontrei um trecho muito cruel sobre a pobreza aqui, e baseio meu texto nesse desconforto.

O guia dizia: “Como lidar com a pobreza da Índia? Bom, a melhor maneira de fazer isso é aprender com os próprios indianos, que já são profissionais na arte de ignorar pedintes e moradores de rua.”

Por isso, antes de escrever sobre Dharavi e minhas experiências neste fim de semana em Mumbai, resolvi tirar alguns dias para refletir e me “desacostumar” com tudo isso. Mesmo por que, como venho trabalhando com favelas em São Paulo nos últimos tempos, sei que não me é permitido escrever qualquer coisa sobre as favelas e a pobreza na Índia. Compartilho um texto muito interessante da Marina Colasanti para ajudar nesse processo.

 

A gente se acostuma a olhar pela janela e não enxergar mais nada

“Eu sei, mas não devia” – Marina Colasanti

Eu sei que nos acostumamos. Mas não devíamos.

Acostumamo-nos a morar em apartamentos de fundos, e a não ter outra vista que não as janelas em redor.

E porque não temos vista, logo nos acostumamos a não olhar lá para fora.

E porque não olhamos lá para fora, logo nos acostumamos a não abrir de todo as cortinas.

E porque não abrimos as cortinas logo nos acostumamos a acender cedo a luz.

E à medida que nos acostumamos, esquecemos o sol, esquecemos o ar, esquecemos a amplidão….

Acostumamo-nos a acordar de manhã sobressaltados porque está na hora.

A tomar o café a correr porque estamos atrasados.

A ler o jornal no autocarro porque não podemos perder o tempo da viagem.

A comer uma sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite.

A dormitar no autocarro porque estamos cansados. A deitar cedo e dormir pesado sem termos vivido o dia…..

Acostumamo-nos a esperar o dia inteiro e ouvir ao telefone: hoje não posso ir.

A sorrir para as pessoas sem recebermos um sorriso de volta.

A sermos ignorados quando precisávamos tanto ser vistos.

Acostumamo-nos a pagar por tudo o que desejamos e o que necessitamos.

E a lutar, para ganhar o dinheiro com que pagar esses desejos e essas necessidades.

E a pagar mais do que as coisas valem.

E a saber que cada vez pagaremos mais.

E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar….

Acostumamo-nos à poluição.

Às salas fechadas, de ar condicionado e cheiro a cigarro. À luz artificial.

Ao choque que os olhos sofrem com luz natural.

Às bactérias na água potável.

Acostumamo-nos a coisas demais, para não sofrermos….

Em doses pequenas, tentando não perceber, vamos afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá….

Se a praia está contaminada, molhamos só os pés e suamos no resto do corpo.

Se o cinema está cheio, sentamo-nos na primeira fila e torcemos um pouco o pescoço.

Se o trabalho está difícil, consolamo-nos a pensar no fim-de-semana.

E se no fim-de-semana não há muito o que fazer, deitamo-nos cedo e ainda ficamos satisfeitos porque temos sempre o sono atrasado.

Acostumamo-nos para não nos ralarmos com a aspereza, para preservar a pele.

Acostumamo-nos para evitar feridas.

Acostumamo-nos para poupar a vida. Vida que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma.

 

Vista da janela; invisível da janela
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2 thoughts on “Pausa: Mumbai segundas impressões”

  1. Leco, trabalho na esquina do ‘Castelinho” da av. São João, um local terrível! Centro de despossuídos de tudo, um local onde é impossível sonhar. Dependentes de crack, doentes, sem teto… todos os dias passo por cima de mais de 60 seres largados no chão, que nem se dão conta que estamos tentando nos desviar de seus corpos para que não sejam pisoteados. A sensação de já não me importar em pulá-los como se fossem cobertores sem alma me constrangeu a tal ponto que já não consigo mais ir à pé, apesar de ser tão perto da minha casa. Não quero deixar de me sentir humana!

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