Por que viajar no final de semana

Eu sempre gostei de viajar. Sou um daqueles caras que adora fantasiar o dia a dia no trabalho como se estivesse em algum outro lugar. Há um tempo descobri que a melhor ferramenta para fugir do cotidiano é ter na cabeça algumas imagens inesquecíveis de lugares inimagináveis.

Pois é, falar em viajar o tempo todo é fácil, mas e na prática, com um milhão de coisas para fazer a semana toda? Todo mundo sabe que quem dividiu a semana em cinco dias de trabalho e só dois de lazer não tinha muitos amigos, mas esse artigo é uma tentativa de justificar o por quê de se planejar pequenas viagens aos finais de semana (independentemente pra onde você for).

Atualmente moro no sul da Índia numa cidade grande e barulhenta chamada Hyderabad. A poluição, o trânsito e o barulho são capazes de tirar qualquer amante de Yoga da sua estável posição. Apesar da qualidade do transporte na região não ser das melhores do mundo, vou tentar justificar por meio de uma história a razão de se aproveitar muito bem os dois dias que nos deram.

Saí sexta-feira às seis e meia da tarde – plena hora do rush – em direção à estação Mahatma Ganghi de ônibus com minha passagem na mão. A cidade escolhida dessa vez é Hampi, uma pequena vila no estado de Karnataka, famosa por abrigar às ruínas do que já foi a capital da INDIA. Um ônibus noturno de mais de 10 horas me permitiu economizar a diária de um hostel e cheguar à cidade de Hospet por volta das 5:30h da manhã.

De rickshaw,  em 40 minutos estava em Hampi a tempo de tomar um banho e tirar um cochilo. Por volta das nove horas da manhã, saí pela pequena cidade para um café da manhã e descobri um templo gigantesco vizinho do meu singelo quarto.  De barriga cheia e feliz pela comida que desta vez não maltratou meu delicado estômago, fui com o Tato, meu companheiro de viagem, comprar a passagem de volta e checar o primeiro dos monumentos obrigatórios na região.

Enquanto pensávamos o caminho a seguir, encontramos dois conhecidos de um outro momento da viagem e o casal nos desafiou a alugar uma moto e explorar a cidade com eles. Nem eu nem o Tato jamais havíamos subido em uma moto, nem mesmo como carona, mas nossa aula empírica de 5 minutos nos deu confiança o suficiente para topar o desafio. Apesar da primeira queda – e algumas cicatrizes – sabíamos que tínhamos pouco tempo na cidade e queríamos aproveitar.

Com o vento em nossos cabelos – e nas várias frestas que a genética fez questão de nos transmitir – saímos pela estrada escapando de buracos e outros motoristas a procura de um pouco mais de história. Depois de mais de 3 horas de passeio, entre templos do século XV e paisagens naturais de tirar o fôlego, escalamos uma pequena montanha para coletar imagens que nos seriam úteis na semana seguinte. De lá, nada mais importante do que não fazer nada.

O estômago avisa que é hora de voltar. Mais algumas paradas de moto e a vila tomou forma outra vez. Agora, quase de noite, o compromisso mais importante era com nós mesmos: banho e jantar. Atendendo a algumas sugestões, escolhemos um restaurante na beira do rio que divide a cidade, com mais um grupo de amigos. A comida mais uma vez não deixou a desejar.

No telhado do hostel, os hóspedes se reúnem para conversar e se conhecer, e alguns aproveitam para recolocar algum tipo de ordem na loucura do dia a dia. É nessas horas que a inspiração para a mudança pode aparecer e, de alguma forma, parece ser assim que a vida deveria ser.

 

No dia seguinte, o café da manhã é do outro lado do rio. Sem pressa nem ansiedade, a fartura de comida deixa um espaço vazio no prato, sinalizando que é hora de partir em direção ao lago. Com as mãos no bolso, decidimos ignorar os meios de transporte pagos e caminhar até o destino final, mas no meio do caminho um polegar vence as barreiras do idioma e garante uma carona no porta-malas de uma caminhonete.

O lago é na verdade o reservatório de água da região e apesar das placas de proibido nadar, jovens de diversas partes do mundo pulam de uma pedra a mais de oito metros de altura para embaçar o espelho d’água tão tranqüilo. Gringos e locais dividem o mesmo espaço com vista para a região de montanhas rochosas que circunda o “lago”.

No caminho de volta,  do alto de um pequeno triciclo de transportar galinhas, nossa carona não entende exatamente o que queríamos dizer e nos arrasta para uma vila mais distante da que estamos hospedados. Caminhando pelas pequenas vilas da região, descobrimos um caldeirão de cultura escondido dos turistas, mas aberto a novas interações.

Por sorte, o caminho errado nos levou aos templos, monumentos e pontos turísticos que estavam faltando. Cruzamos o rio junto aos locais, numa espécie de jangada feita de folhas de bananeira e cordões. Como motor, apenas dois senhores de braços delineados pelo trabalho diário na travessia de seus conterrâneos. A ponte até existiu por um tempo, mas agora só é possível ver pedaços do que um dia tirou a renda mensal dos barqueiros.

Já do lado certo do rio, o diálogo com o motorista de rickshaw merece destaque:

Motorista: Money?

No Money, we are your friends!

E assim, aos poucos, chegamos de volta ao restaurante do dia anterior para a degustação final das delícias que a pequena cidade podia nos oferecer. Despeço-me dos amigos que fiz em pouco tempo e sigo em direção ao ônibus de tantas horas que me traria de volta à minha cidade e conseqüentemente a este escritório. Agora, com a mente leve e a lembrança fresca, escrevo sobre estas poucas horas que tanto me acrescentaram, já pensando no destino da semana seguinte. Às vezes penso que não vale a pena o esforço de viajar e sair da rotina por tão pouco tempo, mas começo aos poucos a mudar de opinião.

Barcos descansando à beira do rio

Pedra de uns 8 metros de altura para pular no "lago"
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2 comentários a “Por que viajar no final de semana”

  1. que delicia!!! nao so a india e as fotos, mas o texto esta muito gostoso de ler! acho que deu pra sentir bastante da viagem….. e deu vontade de viajar tambem!!! beijos e saudades

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