Comunidade da Torre

Gurarulhos, Comunidade da Torre sendo desocupada

Sexta feira passada fui conhecer algumas comunidades do entorno da Rodovia Fernão Dias, bem próximo à saída de São Paulo. Com dois amigos da Ong Um Teto Para Meu País, saímos em busca de alguns endereços que já tínhamos pesquisado, mas andando pela rodovia, avistamos um aglomerado de moradias que se amontoavam embaixo da rede elétrica que acompanhava a estrada. Resolvemos parar.

Quando descemos do carro, ainda estávamos em uma ruela de casas de alvenaria e nos indicaram que continuássemos indo até a comunidade conhecida como “A Torre”. Após cruzar um córrego muito sujo, começamos a caminhar pela favela e percebemos que havia uma tensão por todo o lugar (além da tensão dos fios elétricos que atravessavam grande parte das moradias).

Para entender: a região em que essa comunidade se formou passa por baixo dos fios de eletricidade e termina em um córrego, tudo isso quase à beira da Rodovia Fernão Dias. Todos os barracos que pudemos observar eram feitos de madeirite ou restos de madeira (como outdoors, estrados de camas, “palets” e etc.). Há uma grande quantidade de lixo por todo o percurso e não há sinal algum de infra-estrutura básica. A sensação é de que estávamos em um campo de refugiados ou algo do gênero.
As famílias nos contaram que estavam sendo desalojadas pela prefeitura, pois a região pertencia à duas empresas privadas que solicitaram reintegração de posse, e a Prefeitura de Guarulhos estava realizando a remoção bem na hora que chegamos. Alguns funcionários pichavam a fachada dos barracos com um “D”, de desocupado e seguiam em frente cadastrando as famílias.
De fato, a situação é extremamente precária e perigosa para todos os moradores da comunidade da Torre, e mesmo assim ouvimos moradores que residiam ali há mais de 10 anos. Agora, estavam sendo despejados, sem lugar para onde ir, e recebendo uma chamada bolsa-aluguel, de 1200 reais para sobreviverem 4 meses (os moradores apelidaram o tal benefício de “bolsa-despejo”).
Não há dúvidas que aquelas pessoas não deveriam viver em uma situação como a que vimos, mas com certeza a simples expulsão, sem uma proposta alternativa de moradia, obrigará estas pessoas a migrarem para uma situação ainda pior (se é que isso é possível). As famílias estavam sendo obrigadas a deixar suas moradias em poucos dias, sem estrutura para encontrar um lugar decente e de menos risco e vulnerabilidade. Com certeza, quem tomou a decisão da desapropriação em uma sala de escritório, não sabe – e nem deve querer saber – qual será o destino dessas mais de 380 famílias que ali viviam.
Como cada um faz apenas uma parte do serviço, ninguém consegue ficar de fato sensibilizado com a situação da comunidade. Os funcionários da Prefeitura apenas cadastravam as famílias e marcavam as casas que tinham de ser desocupadas. Uma construtora apenas levava os bens das poucas famílias que tinham outro destino já acertado. Os advogados e a Prefeitura apenas assinaram alguns papéis de reintegração de posse. E ali, as famílias tinham que, apenas, encontraram um novo lugar para reconstruir e reerguer novamente suas vidas (com 300 reais por 4 meses).
Impossível não lembrar das palavras de Adolf Eichmann, em seu julgamento no pós-Segunda Guerra Mundial, quando afirmou que não podia ser considerado culpado pois apenas fazia seu trabalho como oficial nazista e era apenas uma pequena peça de toda a estrutura. (A Hannah Arendt escreveu bastante sobre essa questão em seu livro Eichmann em Jerusalem, em que utiliza-se da expressão “banalidade do mal”)
Pretendo escrever mais sobre a comunidade da Torre, pois ela possui uma série de particularidades que valem a pena registrar.





















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