MITO #5: Quem abre uma ONG não pode receber salário. E se receber, não pode ser bom/adequado. (não posso ser remunerado por trabalhar em uma Ong)

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Balela, é claro. Todas as pessoas que trabalham em organizações sem fins lucrativos podem ser remuneradas. Inclusive, a diretriz é que a remuneração respeite mercados similares para definir  o salário. É importante ficar claro que a lei trabalhista (CLT) não tem nada a ver com um ou outro setor e deve vigorar numa associação assim como em qualquer empresa quando este for o caso.
Essa confusão pode acontecer porque diretores estatutários de associações só podem ser remunerados – pelo cargo de direção – se a organização possuir a titulação de OSCIP, OS ou CEBAS e deliberadamente registrar em Estatuto que os diretores exercem essa função de forma remunerada (respeitando sempre limites e diretrizes legais). Por que escrevi “pelo cargo de direção”? Porque muitas vezes o diretor é um profissional-chave, especialista em sua área de atuação e trabalha na organização, por exemplo como médico. Ele pode ser contratado como médico e exercer o cargo de Diretor de forma voluntária, caso a organização não possua título de OSCIP ou não tenha interesse em remunerá-lo por esta função.
O que acontece também é que o setor social possui diversas oportunidades de trabalho voluntário, no qual o colaborador não é remunerado financeiramente, mas deve cumprir o que esta acordado entre a organização e ele. Neste caso, a contrapartida é a realização pessoal, a oportunidade de vivenciar experiências diferentes, fazer o bem e por ai vai. O voluntariado, apesar de não remunerado, não diminui a responsabilidade de uma pessoa sobre seu trabalho e seus compromissos. É fundamental estabelecer um contrato de voluntariado entre organização e voluntário, com modelo disponível aqui: http://www.voluntariado.org.br/default.php?p=legislacao.php 

MITO #4: ONG não pode vender produto

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Pode! Quem nunca comprou uma camiseta, caneta ou qualquer outra bugiganga de uma campanha de arrecadação de recursos de alguma organização? Além disso, existem várias organizações com verdadeiros comércios, lojas virtuais e serviços logísticos complexos para garantir que esta venda gere receita o suficiente para manter muitas outras atividades da própria organização. Um exemplo é o conceito de bazares, mercadorias recebidas como doação que são posteriormente vendidas como produtos para arrecadar recursos. Há também organizações de inclusão social que produzem artesanato ou outras mercadorias e comercializam estes produtos para sua própria manutenção.
A questão é que, ao vender produtos, a organização deve se enquadrar na legislação convencional, emitindo nota fiscal quando necessário, praticando as regras de mercado e atendendo às certificações e solicitando as permissões solicitadas pelos órgãos responsáveis. Este é um fator super importante pois com a profissionalização do terceiro setor torna-se fundamental o respeito a legislação vigente para evitar surpresas no futuro da organização.

MITO #3: ONG não pode prestar e/ou cobrar por serviços

Pode! Claro que pode 😉 Se não, como ou mesmo para que ela existiria? A questão sobre prestar serviços é inclusive bastante comum, afinal muitas associações são criadas exatamente para prestar algum serviço de interesse público. E muitas vezes, algumas organizações viram especialistas em suas áreas e prestam serviços tanto para o Estado quanto para o setor privado. E sendo assim, porque não poderia cobrar? Por ser sem fins lucrativos? Então, cobrar por um serviço pelo valor de mercado e remunerar as pessoas envolvidas no processo não é atividade lucrativa, é econômica. A única questão é que as pessoas devem ser remuneradas de acordo com o mercado, valores pré-estabelecidos e qualquer superavit ou sobra não pode ser distribuído pura e simplesmente para os associados, deve ser integralmente reinvestido na organização.

MITO #2: É muito caro abrir uma ONG. É muito caro manter a estrutura de uma ONG.

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A minha expectativa de gastos para abrir uma ONG gira em torno de R$2.500,00. Os maiores custos são com contador e advogado, entendendo que a organização já passou do processo de direcionamento estratégico e já tem maior clareza do que e como pretende atuar (se não, esse trabalho pode ser realizado por consultores ou facilitadores externos e ai o chão é o ponto de partida, mas o céu é o limite). Ah, esta estimativa é para São Paulo 😉

Advogado para redigir e assinar Estatuto Social e ata de Fundação: Pode variar de R$0 (pro bono) até uns R$300/hora. Porém, quanto mais avançadas estiverem as discussões e conteúdos produzidos, mais completo é o trabalho do advogado em elaborar estratégias e artigos que prevejam trilhas possíveis que a organização pretende seguir, garantindo isenções fiscais, correta tributação e liberdade de atuação de acordo com as intenções e necessidades da organização. Eu recomendo investir o máximo possível nesta etapa para construir um sólido modelo de negócio e planejamento para evitar dores de cabeça no futuro e, ao mesmo tempo, estabelecer uma relação próxima com escritório de direito ou advogado para desenvolvimento de documentação adequada e acompanhamento mais perene da organização. Atenção: evite padronizações de estatuto ou engessamentos desnecessários à sua organização, o ideal e óbvio é deixar a documentação super adequada a sua atuação presente e potencialmente futura.

Assessoria Contábil para abertura de CNPJ: A média gira em torno de R$600-900. Você ainda terá que registrar a Associação na Prefeitura (aprox. R$300,00), imprimir documentos e reconhecer firmas em cartório (Aprox. R$200,00) e pagar a Taxa de Fiscalização de Estabelecimentos – TFE que é anual (aprox. R$ R$130,00). Esse valor sem contar o acompanhamento mensal da contabilidade, que pode variar de R$150,00 a mais de mil reais por mês, dependendo do número de transições e tamanho da estrutura necessária

Resumo (assumindo que você tem um planejamento estratégico e/ou um modelo de atuação bem definido e detalhado) :

  • Assessoria Jurídica: Aproximadamente R$600,00 (pode variar muito de acordo com profissionais, vai do julgamento e da experiência de cada um)
  • Assessoria Contábil: Aproximadamente R$800,00
  • Gastos com cartório e registros: aproximadamente R$700,00

 obs: Se você precisar de indicações de profissionais nestas áreas entre em contato!

Manter uma organização já é outro assunto. A principio, os custos burocráticos mensais são bastante reduzidos (como contador), o que vai de fato pesar mais ou menos é a estrutura criada a ser gerenciada. Mas isso, variaria mesmo se você estivesse abrindo um negócio tradicional e pode ir de zero ao infinito (e isso, caro amigo, é como dizer que pode variar entre você ser autônomo ou gerenciar a Petrobrás).

Para montar uma perspectiva de orçamento mensal, aproximada, vale se valer de uma planilha de excel simples e projetar os custos e receitas previstos. Existem softwares específicos e inclusive plataformas online de gerenciamento de finanças que podem ser muito úteis. Se você é desses que precisa de ajuda nessa área entre em contato também!

MITO #1: ONG não emite Nota Fiscal

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Emite, opa! Esse processo tem que ser solicitado e a organização deve estar inscrita no  cartório de registro de pessoas jurídicas e para fins de emissão de nota fiscal, elas precisam estar devidamente/legalmente constituídas e requer o registro junto à prefeitura de sp, na secretaria de finanças. Como mencionado em outro artigo, isto deve estar previsto em estatuto social como uma das fontes de recursos da organização (idealmente a venda de produtos e a prestação de serviços deve estar atrelada à atividade meio e não fim da entidade, isto é, a finalidade social da organização deve ser maior que a mera prestação de serviço ou venda de produto, essas são atividades possíveis, mas não devem ser um fim em si mesmo) e arranjado corretamente por um contador. E não esquecer que quando a organização emite nota fiscal, a tributação ocorre de acordo com a categoria de inscrição do cnpj​ e pode variar bastante, (depende também das isenções incidentes, o que muda de estado para estado) pesando mais ou menos na elaboração da precificação dos serviços e produtos.

Nesta série de post sobre Mitos do setor social colaboraram com ajustes e opiniões o consultor Michel Freller e a Assessora Jurídica Raíssa Gradim. Obrigado 😉

#1 Como montar uma Ong/Negócio Social: Quem Somos e o que queremos

Apenas algumas sugestões e direcionamentos 😉

Com a sua equipe, escolha um ambiente bastante agradável e inspirador e prepare o encontro de modo a chegarem a um consenso sobre alguns pontos importantes (eu recomendo a presença de um facilitador externo ou pelo menos alguém do grupo com a função de levantar as questões e garantir que elas sejam registradas):

Equipe

Gosto muito de começar este encontro com uma apresentação individual de cada presente, indo além do convencional. Como pilar do desenvolvimento de qualquer organização, seja ela com ou fins lucrativos, com interesse social ou apenas acumulação de lucro, é fundamental a compreensão sobre as pessoas que fazem e idealizam diariamente o empreendimento. Assim, é de extrema importância entender não só a origem e interesses de cada um dos fundadores, bem como seus atuais estados de espírito e expectativas para a continuidade do trabalho em conjunto. Para isso, cada integrante deve ter a oportunidade de contar sua história de vida – de acordo com recorte escolhido – e a conexão entre história pessoal e a iniciativa de impacto social.

Para isso, devem ser feitas perguntas que estimulem o empreendedor a contar sua história de vida como um todo, e não somente o que for relevante para a iniciativa social. Onde nasceu, como foi criado, onde e se teve a oportunidade de estudar, últimos trabalhos, hobbies e etc. Deve-se solicitar que termine a fala dizendo qual é o papel desempenhado pela pessoa dentro da iniciativa, para que se possa ter uma ideia do atual organograma.

É importante estimular os participantes a realmente contarem suas histórias de vida, não se atendo apenas a formação acadêmica e/ou experiência profissional. Este pode ser o primeiro – ou um dos poucos momentos – em que todos terão a oportunidade de contar suas experiências e ouvir o que cada um do grupo pode agregar à organização.

Nome da Organização

Se a organização já tem um nome consolidado, moleza. Se não, esta é uma hora fundamental de colocar todos os fundadores na mesma página para criar um nome que, por um lado represente o que a organização de fato faz, mas que também tenha algum apelo de comunicação e seja fácil de ser lembrado. Ou pelo menos pronunciado.

O que a organização faz

Por mais ampla que esta pergunta seja, o objetivo dela é chegar a uma descrição de até um parágrafo sobre quem é essa organização. A tarefa é relativamente simples e super complicada: resumir em um parágrafo, para o público em geral, quem é essa organização. O processo de entender uma organização começa por compreender como ela mesma se enxerga e como expressa publicamente seu trabalho. Um exercício importante é adequar discurso e prática, pois não adianta ter um forte e o outro deficitário. A apresentação e a escolha do que comunicar e do que omitir está diretamente relacionada com a percepção de valor que cada palavra agrega, tanto para o apresentador quanto para o ouvinte. Assim, a primeira apresentação da iniciativa representa algo bastante significativo.

O exercício proposto é pedir a uma pessoa da iniciativa para que faça uma apresentação de até 10 minutos “para um possível investidor”, ressaltando o que acha mais relevante e importante na organização. Ao final, outros participantes podem acrescentar aquilo que acharem extremamente necessário e sentiram falta.

A partir da transcrição da apresentação feita, é importante que todos façam comentários sobre a apresentação. Deve-se prestar bastante atenção aos detalhes, como os diversos destaques dados a assuntos mais ou menos relevantes durante a apresentação, tais como: tempo de atuação, localização geográfica, diferenciais de produtos e/ou estratégia, potencial de crescimento, parcerias, viabilidade financeira, proposta de valor, o que faz, como faz e por quê faz. Nesse momento, cada palavra importa e deve ser observada e discutida com atenção pelo grupo.

Por que a Organização faz o que ela faz? (Justificativa)            

Este ponto é importante porque situa o contexto no qual a organização pretende intervir. Não confunda com os objetivos, aqui o fundamental é delimitar claramente qual o problema ou oportunidade com que a organização pretende atuar. Podem ser usados dados estatísticos que descrevam uma carência regional, as necessidades específicas de um nicho da população ou mesmo uma percepção coletiva de alguma situação que poderia ser melhor na visão do grupo. É importante não se limitar apenas a uma visão voltada a problemas e escassez, mas também entender que as vezes o contexto mostra oportunidades com potencial de desenvolvimento que ainda não foram exploradas e a Organização se vê capaz de impulsioná-las.

Como exemplo, baseado numa metodologia de desenvolvimento chamada Asset Based  Approach, gosto de fazer a seguinte reflexão:

Se observarmos uma favela em busca de 10 problemas ou necessidades, temos certeza  que encontraremos. Veremos que a iluminação é deficiente, não há saneamento básico  para todos, as ruas não estão pavimentadas, há pessoas na rua “sem fazer nada” e etc.  Porém, se chegássemos a mesma favela com um olhar de abundância, observando 10 potencialidades ou oportunidades, também as encontraríamos. A rua não pavimentada  abre espaço para o cultivo de agricultura de subsistência ou uma discussão sobre a construção desta rua em uma proporção relevante para o uso daquela região; pessoas na rua demonstram um ambiente com segurança de ocupar o espaço público e nos informam sobre a disponibilidade de capital humano para desenvolvimento de iniciativas locais, como mutirões e estímulo ao empreendedorismo.

O que a Organização quer com sua atuação? (Objetivos)

Definir os objetivos de uma organização social nascendo não é uma tarefa tão simples,  mas é importantíssima. Tendo em vista que a justificativa e o contexto estão claros, é hora de definir com certa clareza o que a organização pretende alcançar com seu trabalho, como enxerga mais ou menos as mudanças que é capaz de proporcionar e o que almeja coletivamente alcançar. A dica mais famosa para construir objetivos vem da sigla em inglês SMART:

S – Específicos (Specific): os objetivos formulados devem ser precisos e específicos, oferecendo bastante clareza do que se está falando;

M – Mensuráveis (Measurable): deve se conseguir medir, observar e verificar se o objetivo foi alcançado e em qual grau

A – Atingíveis (Attainable): Como eles devem ser específicos e mensuráveis, é importante garantir que sejam traçados objetivos possivelmente realizáveis e potencialmente alcançáveis

R – Realistas (Realistic): devem também ser realistas em relação às possibilidades de serem alcançados, tanto por variáveis da organização como do contexto

T – Temporizáveis (Time-bound): os objetivos devem ser definidos com tempo de duração para que se possa avaliar se foram ou não alcançados

Este é apenas um direcionamento. O importante é criar frases que além de cumprirem o quesito “soar bem”, sejam de fato interesse coletivo e potencialmente alcançáveis de acordo com o o que o grupo se propõe. Uma sugestão é deixar a lista crescer bastante, não se importando com o grande número de objetivos propostos. Após uma listagem prolongada, vale fazer o exercício de agrupamento e encontrar objetivos que falam do mesmo assunto e poderiam ser agrupados em uma redação única e mais abrangente.

Para a primeira fase desse processo acredito que vale mais a pena sair com clareza destes três pontos fundamentais do que se estender e perder qualidade. Assim, é importante consolidar essas informações em um documento para que possa ser revisitado no próximo encontro (e muitas outras vezes ao longo da trajetória)

Este post obviamente continua…. 🙂

#Resenha: A Riqueza na Base da Pirâmide – C.K. Prahalad

riqueza na base da pirâmide prahalad

Preciso confessar que tenho muitas ressalvas em relação a este livro. Apesar disso, achei que valeria a pena ressaltar alguns aspectos positivos e destacar posições que ficam de fora da discussão superficial sobre a chamada “Base da Pirâmide”*. Em seu prefácio, escrito por ele mesmo, Prahalad pergunta: “Por que não podemos mobilizar a capacidade de investimento das grandes corporações aliado ao conhecimento e comprometimento de ONg’s e comunidades que precisam de ajuda? Por que não podemos cocriar soluções únicas?”. Em seguida, completa: “O processo deve começar respeitando os consumidores na base da pirâmide como indivíduos. O processo de cocriação assume que estes consumidores são igualmente importantes solucionadores de problemas em conjunto.”
A proposta de Prahalad é buscar novas e criativas abordagens para converter a pobreza em oportunidade. E é aí onde acredito que mora o perigo da imprecisão e da distorção.
Passado o prefácio, a “base da pirâmide” é contextualizada e definida, sendo a distribuição da riqueza dividida em um modelo de pirâmide tendo no topo os ricos, com numerosas oportunidades de gerar altos níveis financeiros. Ele afirma que mais de 4 bilhões de pessoas vivem na base desta pirâmide, recebendo menos de U$2 por dia.
Algumas premissas do livro são potencialmente dúbias e podem gerar um movimento de exploração ainda maior por parte de uma população já marginalizada e excluída. Em outro artigo escrevo minha visão do porquê não falar me base da pirâmide, mas para fins de resenha vou destacar aqui os 12 princípios da inovação para os mercados na Base da Pirâmide. Antes , Prahalad destaca que “o básico da Economia no mercado na base da pirâmide se baseia em pequenos pacotes unitários, baixas margens por unidade, amplitude de volume e alto retorno do capital investido.”

12 princípios da inovação para o mercado na base da pirâmide

1. Concentre suas energias em preço-desempenho de produtos e serviços.

A ideia destacada aqui é que muitas vezes pessoas com dificuldades financeiras precisam de alternativas de preços, sejam por seus valores reduzidos, pelas facilidades de pagamento e parcelamento ou pelo menos pelo excelente custo benefício que justifique a compra.

2. A inovação requer soluções híbridas (misturando velhas e novas tecnologias)

As soluções devem mesclar o que há de melhor em infraestrutura e tecnologia de forma criativa, aliando as novas facilidades de acesso a necessidades comuns

3. Como os mercados da Base da Pirâmide são imensos, as soluções por ele desenvolvidas devem ser escaláveis e transportáveis entre países, culturas e idiomas diferentes.

Quando se fala em escala é importante desenhar opções que sejam facilmente adaptáveis a outros mercados que podem se beneficiar da inovação. Ressalto que muito dificilmente uma solução aplicada na Índia será facilmente implementada no Brasil, África ou Europa sem grandes adaptações. A proposta aqui é desenhar já com esta premissa e mente e facilitar estas adaptações para ganho de escala.

4. Redução da intensidade de recursos. Todas as inovações devem observar a conservação dos insumos (eliminar, reduzir, reciclar)

Prahalad usa como referência o fato de que se o mundo em desenvolvimento começar a consumir como o típico americano ou japonês, por exemplo, o planeta não daria conta. Portanto propõe a redução de recursos e aumento da eficiência. Mas destaco: isso se enquadra para qualquer público alvo de consumo e, obviamente, faria mais sentido propor a mudança de cultura e redução do consumo para a sociedade como um todo, sem segmentação.

5. O desenvolvimento do produto deve começar por um profundo entendimento da funcionalidade, não apenas da forma.

Dadas as condições muitas vezes insalubres nas quais estes produtos serão utilizados, cabe ao produtor levar em consideração as diferentes formas de uso que serão atribuídas ao produto, para que ele seja realmente adaptado ao contexto do consumidor de baixa renda.

6. Construção de infraestrutura logística e de produção.

O ponto de destaque é a corriqueira falta de estrutura e logística para acessar populações marginalizadas, fazendo com que produtos e serviços cheguem e possam ser usados por pessoas fora do circuito convencional de consumo. Uma das sugestões é que a cadeia logística seja inclusa no próprio negócio, garantindo ainda resultados sociais mais amplos como geração de renda e desenvolvimento de infraestrutura pública. Sobre esse assunto, recomendo o TED da Melinda Gates, O que organizações sem fins lucrativos podem aprender com a Coca-Cola

7. Adequar o trabalho necessário às aptidões existentes. O projeto deve levar em conta os níveis de qualificação, infraestrutura deficiente e dificuldades de acessar serviços em áreas remotas.

Assumindo que um público de baixa-renda e poder aquisitivo restrito tem também carência de outras formações específicas, Prahalad propõe a simplificação do tipo de trabalho e dos canais de acesso para atender mais facilmente uma população de baixa-renda e pouco acesso a qualificações específicas.

8. Educar os consumidores ao uso dos produtos.

Desenvolver um planejamento para ensinar potenciais consumidores a usarem produtos e serviços torna-se fundamental na visão de Prahalad. Assumindo a necessidade de explorar nichos alternativos de comunicação, como palestras e teatros diretamente apresentados para o público consumidor, o autor faz um chamado à criatividade para garantir que a falta de acesso aos meios de comunicação tradicionais não seja uma barreira para atingir o público-alvo específico. Muitas vezes também, o produto ou serviço pode ser visto como uma novidade na região e exige um processo formativo sobre os potenciais usos e benefícios para aquela população.

9. Os produtos devem funcionar em ambientes hostis (barulho, poeira, poluição, oscilações de voltagem, etc)

Ainda assumindo que o ambiente no qual pessoas “na base da pirâmide” vivem é hostil, Prahalad propõe a criação de produtos que sejam resistentes a este contexto, tanto para o consumidor fim quanto para a cadeia logística, garantindo a entrega e o consumo da população

10. Interface de uso adaptável devido à heterogeneidade dos consumidores da base

Ampliar as possibilidades de oferta para uma população heterogênea é fundamental, pois o público-alvo é diverso e não representa um nicho homogêneo. Apesar das generalizações em relação a pessoas com baixa-renda ou situadas na base da pirâmide – conforme o autor – isto não as qualifica necessariamente como um grupo de comportamentos, necessidades e oportunidades comuns.

11. Método de distribuição deve ser desenvolvido para alcançar tanto mercados rurais e urbanos.

As inovações para a base da pirâmide se propõem a atingir a toda uma população situada nessa “faixa de renda”, o que amplia consideravelmente a quem é o potencial público consumidor ao qual o autor se refere. Sendo assim, a localização geográfica e o estilo de vida são tão variados quanto é possível, exigindo uma abordagem ampla que atenda tanto áreas rurais quanto urbanas.

12. Foco na ampla arquitetura do sistema (a plataforma) a fim de possibilitar a fácil incorporação de novas particularidades.

Paradoxalmente, as evoluções neste mercado podem ser muito rápidas, exigindo então uma estrutura bem elaborada capaz de incorporar adequadamente as novas demandas e aperfeiçoamentos que o processo possa trazer.

#Resenha: Um mundo sem pobreza – Muhammad Yunus

Definição de Pobreza – Muhammad Yunus e Grameen
*Trecho extraido do 5º capítulo do livro Um Mundo sem Pobreza, de Muhammad Yunus

um-mundo-sem-pobreza-muhammad-yunus

Uma definição de pobreza que leva em consideração apenas a renda, como a famosa linha de U$1,00 por dia, com certeza carece de um aprofundamento se a proposta é, de alguma maneira, contribuir com a solução do problema. Afinal, um ser multidimensional como o ser humano precisa de uma análise e soluções mais complexas.
O Professor Muhammad Yunus, famoso por sua atuação com o microcrédito junto ao Banco Grameen, propõe um novo modo de encarar a pobreza. Ele definiu, junto à sua equipe do Grameen, dez pontos básicos que diferenciam uma vivência digna de outra repleta de carências potencialmente prejudiciais. Assim, àqueles que não se enquadram nestes princípios básicos são considerados ainda “pobres” pelo Banco:
1. Vivam em uma casa com telhado de zinco e durmam em catres ou estrados, em vez de dormirem no chão. Ou casas que valham pelo menos 25 mil tacas (370 doláres).
2. Bebam água pura encanada, água fervida ou água sem arsênico, filtrada ou purificada de alguma forma.

3. Todos os filhos física e mentalmente saudáveis, acima dos 6 anos, frequentem ou já tenham terminado o ensino básico.

4. A prestação mínima semanal semanal do empréstimo com o Grameen seja de 200 tacas (3 doláres).

5. Todos na casa usem latrinas higiênicas

6. Todos tenham roupas suficientes para satisfazer suas necessidades diárias (roupas de inverno, mantas e mosquiteiras)

7. A família possua fontes adicionais de renda, às quais possam recorrer em caso de necessidade.

8. O membro Grameen mantém um saldo anual médio de 5 mil tacas na poupança (próximo à 75 doláres).

9. Consiga oferecer à sua família 3 refeições substanciais por dia, o ano todo.

10. Todos cuidem da saúde, tomem medidas imediatas e possam arcar com despesas médicas, em caso de doença.*

A importância destes 10 parâmetros é de reafirmar a necessidade de que a pobreza seja definida claramente, de modo que um programa ou projeto antipobreza tenha público-alvo, metas, objetivos e resultados capazes de se tornarem realidade. Muitas vezes ainda será necessário redefinir a pobreza de acordo com o ambiente, o estado ou o país, para qualificar ainda mais a atuação de projetos e empreendedores que buscam a solução para estes problemas sociais.
Não há mais como equilibrar políticas públicas e iniciativas sociais em dados despersonalizantes e tão distantes da realidade factual pela qual os mais pobres do mundo estão passando. Afinal, o que significaria – de fato – viver com menos de U$1 ao dia? E qual solução iria conseguir alterar esta realidade sem parecer simplista ou desrespeitosa com a grande diversidade de seres humanos abaixo dessa linha?

Resenha: An Ordinary Man – Paul Rusesabagina – Um homem qualquer e uma reflexão sobre “negócios sociais”

an ordinary man paul rusesabagina

Bem que eu tentei escapar de falar do genocídio durante a minha curta passagem por Ruanda. Tirando a experiência com Agohozo-Shalom, nenhum dos meus planos propositalmente incluía esta discussão. Claro, visitei o memorial em Kigali – muito bem organizado por sinal – e diversos outros espaços que serviram de palco para algum tipo de atrocidade durante os dias em que Ruanda caiu em momentânea insanidade. Não foi difícil encontrar tais lugares.

Foi difícil manter meu desgastado grifa texto e meu mal apontado lápis distantes das recém compradas páginas do “An Ordinary Man” (sem tradução para o português ainda! – Absurdo), de Paul Rusesabagina. Não rabisquei o livro pelos dados ou contextualizações muito bem descritas, mas o fiz pelos excelentes parágrafos de sinceridade e reflexão de um homem que acompanhou de perto – muito mais perto do que ele gostaria – mais uma das nossas falhas como sociedade.

Mais uma vez, foi um livro o fator que despertou minha atenção. Um livro qualquer, de um homem qualquer. O autor é simplesmente o homem cuja função durante o genocídio não poderia ser mais conhecida: gerente do hotel Des Mille Colines, o estabelecimento por trás do famoso filme Hotel Ruanda. Mais do que uma história inacreditável, o livro apresenta um homem comum, ordinário como ele mesmo se apresenta, porém de rara sabedoria. Um livro comprado à toa, sem expectativa, mas devorado em uma viagem de ônibus.

Dois fatores são destacados no livro e merecem a devida atenção. Primeiro, o autor enfatiza a causa principal do genocídio: “o mundo inteiro ao meu redor ficou louco. E o que causou tudo isso? Muito simples: Palavras”. Palavras estas que também contribuem para entender o segundo destaque do autor, no caso, em relação ao que contribuiu para que ele sobrevivesse – e protegesse 1268 pessoas em seu hotel: “Não sou nada mais do que um gerente de hotel, treinado para negociar contratos e encarregado de fornecer abrigo aqueles que solicitam. Meu trabalho em nada mudou durante o genocídio”

Em um relato denso e sincero, Rusesabagina descreve os fatos que extraíram mais de 800 mil vidas entre os dias 6 de abril e 4 de julho de 1994. Da história pessoal de sua família e amigos, reunidos em um quarto do hotel para juntos prometerem cuidar uns dos filhos dos outros caso viessem a ser assassinados até duras críticas a atuação da ONU e praticamente todas as outras agências internacionais “atuantes” em Ruanda, o livro é uma aula de humanismo e uma profunda reflexão sobre a maneira com que lidamos com nossos problemas contemporâneos.

“Uma triste verdade da natureza humana é a dificuldade em se preocupar com pessoas quando elas são apenas abstrações, quando não é com você ou alguém próximo a você. A menos que a comunidade internacional possa parar de encontrar maneiras de estremecer na face desta monstruosa ameaça à humanidade, estas palavras “nunca mais” vão continuar sendo uma das mais abusadas frases, e uma das grandes mentiras de nosso tempo”

O ponto que mais me encantou no relato é a constante fuga do heroísmo e a simplificação de suas atitudes como apenas “parte de seu trabalho” e “fazendo o que qualquer um faria para manter-se são”. É uma aula sobre a importância de fazer o bem, independentemente da sua área de atuação. No livro, Paul sugere “que aquele que não ouve seu próprio pai não adquire a sabedoria de seu avô” e assim lembro o que meu pai sempre me disse (baseado no que meu avô lhe disse): “Não importa o que você for fazer, faça da melhor maneira possível. Seja o melhor lixeiro da cidade, se este for o caso”.

E assim, durante os 100 dias do mais rápido, mais eficaz e mais violento genocídio dos nossos tempos, o gerente de um hotel estava empenhado em manter sua sanidade através do bom trabalho dentro do que lhe convinha. Afinal, da mesma forma em que afirma que “as palavras são a mais eficiente arma de morte no arsenal humano, mas podem também ser uma poderosa ferramenta da vida”, conclui com um bonito pensamento: “a arma mais poderosa de um individuo é a teimosia em acreditar no triunfo de uma decência comum”.

E para o futuro, dentro da nossa constante busca por respostas sobre como impedir que tragédias como essa ocorram novamente, uma simples lição sobre o que cada um de nós pode fazer: “Aonde quer que a temporada de assassinatos comece novamente e as pessoas se tornem estranhas a si mesmas e a seus vizinhos, minha esperança é que ainda existiram homens comuns que dirão um ‘não’ quieto e abrirão os quartos de hóspedes”.

Assim, uma pequena reflexão: ao invés de continuarmos criando novas terminologias para profissões tradicionais, como negócios sociais, trabalho humanitário ou investimentos de impacto social, basta que façamos o que deve ser feito, em qualquer espaço, com esta teimosia em manter certa decência comum a todas as nossas ações. Que façamos negócios, e que eles sejam obviamente sociais. Que trabalhemos em qualquer área, e que o resultado seja uma melhoria humanitária. E que nossos investimentos – financeiros ou de tempo – sejam sempre impactantes beneficamente para o coletivo.
(e eu fazendo um mochilão e chamando ele de social, não é uma dessas contradições?)

#Resenha: Como Mudar o Mundo – David Bornstein – 6 Qualidades de Empreendedores sociais bem sucedidos

6 Qualidades de Empreendedores sociais bem sucedidos

(cap. 18, página 289)

como mudar o mundo bornstein

Na série #euleiopravocê dessa vez trago um excelente resumo de características fundamentais que fazem empreendedores serem bem sucedidos, observadas por David Bornstein em seu livro “Como Mudar o Mundo”. Primeiro preciso contextualizar o conceito de bem sucedido, e isso fará bastante diferença para que se continue a leitura. Aqui, ser bem sucedido significa chegar mais perto de alcançar seus objetivos de impacto social positivo. A lista a seguir não trará estratégias ou ferramentas para que qualquer um seja um empreendedor de sucesso financeiro, mas sim um trabalho de observação e extração da essência destes empreendedores focados em resolver questões sociais, apresentando características inspiradoras e poderosas.

1) Disposição de corrigir-se

“É preciso uma combinação de obstinação, coragem e humildade para dizer ‘Isso não esta funcionando’ ou ‘Os nossos pressupostos estavam errados’, ainda mais quando o financiamento depende da execução de um plano pré-autorizado. No entanto, a tendência do empreendedor a corrigir-se nasce do apego a um objetivo e não a um plano ou abordagem específicos”

O legal aqui é o destaque e foco no objetivo, e não no próprio empreendedor. Corrigir-se tem como objetivo atingir um maior impacto social, independente de ego ou qualquer outra vontade do empreendedor.

2) Disposição de dividir os créditos

“Já se disse que não há limite para o que se pode conseguir quando não há preocupação com quem leva o crédito. Para os empreendedores, a disposição de dividir os créditos está no ‘caminho vital’ para o sucesso, simplesmente porque, quanto mais créditos dividirem, o normal é que mais gente vá querer ajudá-los.”

Dividir os créditos de maneira natural e verdadeira não é uma tarefa fácil, mas está diretamente ligada a essência do empreendedor e suas reais intenções com o empreendimento. Isto ocorre naturalmente quando, mais uma vez, o foco esta no objetivo social e não no reconhecimento do próprio empreendedor.

3) Disposição de se livrar de estruturas estabelecidas

O autor destaca aqui a habilidade dos empreendedores de avançarem mais rapidamente e de forma estrutural, ao envolver não só o setor social e sem fins lucrativos, mas também empresas, governos e universidades. Assim, “O que ganham é a liberdade de agir e a distância necessária para enxergar além da ortodoxia dos seus campos. Isso é fundamental, porque toda inovação traz consigo a capacidade de separar-se do passado.”

4) Disposição de cruzar fronteiras interdisciplinares

“Na verdade, uma das funções primárias do empreendedor social é atuar como um tipo de alquimista social: criar novos compostos sociais; reunir ideias, experiências, talentos e recursos de várias pessoas em configurações que a sociedade não está naturalmente predisposta a produzir”

Cada vez mais fala-se em soluções sociais sistêmicas, que atuem não só na questão em si, mas no contexto que circunda o tema e é ao mesmo tempo causa e consequência da situação. Assim, o empreendedor social funciona mesmo como esse fator que dá liga aos diferentes atores que intervem sobre determinada situação, potencializando suas atuações e ampliando o impacto positivo.

5) Disposição de trabalhar em silêncio

“‘A principal meta de muita gente notável é criar um personagem e desempenhar um papel’ ele [Jean Monet] observou. ‘São úteis à sociedade, na qual a imagem é importantíssima e a afirmação da personalidade essencial para administração das coisas. Mas, em geral, é o outro tipo de gente que faz as coisas andarem: aquela que emprega o seu tempo procurando lugares e oportunidades para influenciar o rumo dos acontecimentos. Os lugares nem sempre são os mais óbvios e as oportunidades nem sempre aparecem quando a maioria espera. Quem quiser descobrir tem de abandonar as ribaltas'”

Um ponto fundamental que fica claro é o foco nos objetivos sociais e não necessariamente no reconhecimento público das ações. Vejo isso não como uma premissa necessária, mas como um verdadeiro direcionador e catalisador das ações: se o empreendedor não está distraído tentando aparecer, fica mais fácil se focar na sua atuação e, consequentemente, envolver mais pessoas e alcançar seus objetivos. O mais interessante aqui é a lógica da “trajetória”, já que muitas vezes desconhecemos o caminho silencioso que um empreendedor social percorreu até ser reconhecido.

6) Forte impeto ético

“É impossível falar me empreendedores sociais sem levar em conta a qualidade ética da sua motivação: o porquê. No fim das contas, o empreendedores sociais e comerciais são praticamente da mesma espécie. Pensam sobre os problemas do mesmo jeito. Fazem o mesmo tipo de pergunta, A diferença não está no temperamento nem na capacidade, mas na natureza de suas visões. Em uma só pergunta: o empreendedor sonha em construir a maior fábrica de tênis ou vacinar todas as crianças do mundo?”

Acredito que a perspectiva do “porquê” é fundamental e realmente direciona a atuação do empreendedor para fins sociais ou apenas comerciais. Vale destacar qando o foco do empreendimento esta no beneficiário ou no empreendimento/empreendedor em si mesmo. Além de um bom “porquê”, um excelente “como” vai fazer toda a diferença na execução deste plano e garantir essência e profundidade na atuação

Um blog sobre o social. O que quer que isso seja.

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