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Arquivo da Categoria: pobreza

Por que transformar um livro em Áudio? E o que isso tem a ver com Desenvolvimento Social, inclusão e erradicação da pobreza?

No processo de escrever e editar o livro “Mochila Social: um olhar sobre desenvolvimento social e pobreza no leste da África” de forma independente, acabei aprendendo muito sobre o processo e o mercado editorial. Porém, mais do que isso, aprendi sobre a importância de se compartilhar experiências, reais ou ficcionais, como forma de ampliar o alcance da imaginação de outras pessoas. E foi em um destes momentos de aprendizado que descobri a importância de um audiolivro.

Em abril de 2011, me inscrevi em um curso chamado “Do rascunho na gaveta ao primeiro livro”. Apesar do título convidativo, eu participei muito mais por curiosidade e pela possibilidade de aprender algo de valor para o processo de produção de dois livros em que estava trabalhando do que qualquer outra coisa. Discutíamos literatura, os caminhos que um rascunho percorre até virar um texto, para depois virar um livro e, quem sabe, um dia chegar às mãos de mais do que alguns familiares e amigos.

Dentro do pequeno grupo, uma importante contribuição. Uma senhora de mais idade nos acompanhava nas discussões, comentava suas preferências e nos alertava: deficientes visuais tem uma grande paixão por histórias que os permitam viajar e imaginar um mundo mais complexo dentro de si próprios, mas a escassez de materiais adaptados limita o que pode ou não ser imaginado. Fiquei com isso na cabeça.

Desde que operei meu joelho em 2008 (pela primeira vez, já que foram três cirurgias desde então) fiquei mais atento e sensível às dificuldades de locomoção impostas pelas nossas calçadas e ruas pouco convidativas. Andar de muletas em ambientes públicos é assustador. Sem muletas ou qualquer sinalização de que há em mim algum tipo de sensibilidade exacerbada é ainda mais desafiador e aterrorizante. Antes, não era “um problema meu”, mas mesmo depois de voltar a caminhar perfeitamente, ainda enxergo o que se passa na frente dos meus pés com atenção e preocupação.  Pego emprestado uma fala do escritor Mia Couto, no livro Se Obama Fosse Africano: “é fácil (embora se vá tornando raro) ser-se solidário com os outros. Difícil é sermos os outros. Nem que seja por um instante, nem que seja de visita”.

O mesmo acontece com a vontade de compartilhar uma experiência para que mais pessoas possam se inspirar a fazer o que lhes cabe. Desde o início do processo de produção deste livro, acreditei na importância de transformar esta experiência em algo que valesse a pena ser compartilhado, imaginado e reorganizado de forma única e individual para o leitor. Assim, fiz questão de produzir um audiolivro para que pessoas com deficiência visual, problemas de visão ou mesmo relacionados com a capacidade de leitura pudessem ter acesso a arquivos de áudio que lhes permitisse imaginar uma outra realidade.

O limite entre a história contada e uma ficção bem elaborada, de um mundo difícil de acreditar que exista, mas mesmo assim verossímil, é apenas o que podemos imaginar. E então, como podemos decidir excluir ou privar àqueles que mais podem se beneficiar de um momento de abstração e reflexão sobre uma outra realidade, um outro lugar? Dentro do projeto Mochila Social, os custos de produção de um material como esse são ínfimos se comparados com os benefícios que a inclusão pode trazer à discussão sobre desenvolvimento social e pobreza.

Inclusão, para mim, é garantir que o diferente é tratado como diferente quando necessário. Assumir que determinadas situações exigem ações unilaterais de inclusão, seja ela social, financeira ou política, dada a situação em que algumas pessoas se encontram e, de fato, poderiam se beneficiar de algum tipo de ajuda externa. Para isso, só estando com os ouvidos mais abertos do que a boca para entender quais são as ações que podemos fazer para contribuir com a situação do outro.

O audiolivro é gratuito para quem tem necessidades especiais e tem valor sugerido de R$10,00 para quem mais quiser o material e ainda contribuir com o projeto. Para baixar o arquivo, basta acessar o www.mochilasocial.com e entrar em contato. Lá você pode ouvir gratuitamente a introdução do audiolivro “Mochila Social: um olhar sobre desenvolvimento social e pobreza no leste da África”.

 

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Doze passos práticos para solução de problemas (sociais), por Paul Polak (#1 parte)

Em primeiro lugar queria dizer que acho uma grande pena – e uma grande perda – não termos ainda nenhuma versão deste excelente livro em português. “Out of Poverty”, ou algo como “Saindo da Pobreza”, do americano Pail Polak é um dos melhores e mais motivadores livros quando o assunto é a constante tentativa de encontrar soluções para “erradicar a pobreza”. O mais interessante na postura de Polak, que tem uma excelente palestra no TEDx, é a proposição não de soluções, mas de caminhos e raciocínios lógicos para a solução destas incoerências sociais pelas quais a maioria da população mundial  ainda sofre diariamente.

Em algum outro momento ainda farei uma resenha completa de toda a obra “Out of Poverty”, mas neste momento acho válido destacar o primeiro capítulo, traduzido livremente para o português como “Doze passos práticos para solucionar problemas (sociais)”.  Aqui, o autor compartilha alguns conceitos e diretrizes que vem regendo seu trabalho nos últimos anos, frutos de aprendizado a campo, literalmente. Vou listar os doze e fazer breves comentários em seguida, com o único objetivo de compartilhar aqui algumas ideias bem formuladas e que podem de alguma forma servir de inspiração a todos aqueles que estão em busca de alguma mudança social.

  1. Vá onde a “ação” está;
  2. Converse com as pessoas que enfrentam o problema específico e ouça o que elas têm a dizer;
  3. Aprenda tudo o que você puder em relação ao contexto específico do problema;
  4. Pense grande e aja grande;
  5. Pense como uma criança;
  6. Enxergue e faça o óbvio;
  7. Se alguém já tiver inventado, você não precisa inventar tudo novamente;
  8. Tenha certeza que sua abordagem tem impactos positivos mensuráveis e que podem ser ampliados e ganhar escala. Tenha certeza de que pode atingir um milhão de pessoas e fazer a vida delas, de forma mensurável;
  9. Desenhe/crie/invente para custos específicos e preços adequados a seus públicos –alvo;
  10. Siga planos práticos de três anos
  11. Continuem aprendendo com seus consumidores/beneficiários
  12. Mantenha-se positivo/motivado: não se distraia com o que outras pessoas pensam

 1.       Vá onde a “ação” está

Segundo o autor, você não pode sentar-se confortavelmente em seu escritório no Banco Mundial ou em no laboratório de pesquisas de uma grande universidade e descobrir o que fazer em relação a pobreza de Myanmar. Fazendo um paralelo conosco aqui em São Paulo, não adianta somente idealizar um negócio social de um escritório na Vila Madalena ou nos jardins, ou propor congressos e seminários fechados entre universitários de classe média e alta para discutir segregação e desigualdade social, ou a pobreza das favelas, sejam elas na periferia ou no centro.  “Eu simplesmente não posso imaginar como alguém pode fazer planos realísticos de erradicar a pobreza ou suprir a demanda de algum problema importante sem visitar os lugares onde este problema esta acontecendo e sem conversar com as pessoas afetadas pelo problema”, conclui.

2.       Converse com as pessoas que enfrentam o problema específico e ouça o que elas têm a dizer

Em 1990, alguns especialistas em agricultura vinham reclamando da postura de microfazendeiros em Bangladesh, pois estavam usando apenas uma pequena porção de fertilizante nas plantações, mesmo tendo um aumento na produção de arroz na temporada de monções.  Se o poder aquisitivo dos fazendeiros crescia, porque então não cresciam também os investimentos? Finalmente, alguém teve a ideia de perguntar para os fazendeiros o porquê de utilizarem tão pouco fertilizante.

“Ora, essa é fácil”, respondeu um dos fazendeiros. “Mais ou menos uma vez a cada dez ano ocorre uma enchente decorrente das monções que nos faz perder toda a plantação. Por isso, cada um de nós gasta em fertilizantes apenas o que se vê disposto a perder no caso de uma enchente como estas”. Sendo assim, a lógica fazia sentido: mais valia se precaver em evitar a perda da plantação toda, do que possivelmente triplicar a produção (mas no risco de perder tudo).

O mais importante deste item é que não basta apenas conversar e fazer perguntas. É necessário estar presente, disposto a ouvir e inclusive a modificar pré-determinações em prol da adequação a questão real. É fundamental compreender que ouvir é um exercício que envolve mais do que apenas receber as ondas sonoras no nosso ouvido, mas estar apto a compreender e agir baseado nesta troca de informações.

3.       Aprenda tudo o que você puder em relação ao contexto específico do problema;

Polak divide sua experiência com as bombas de sucção de água movido por força humana utilizados em Bangladesh. De início, ninguém sabia a profundidade dos poços cartesianos, a distância dos lençóis freáticos, a tipologia mais indicada de agricultura para cada uma das regiões, muito menos o potencial econômico de cada vilarejo. Porém, todas estas questões tiveram que ser sanadas ao longo do tempo, em cooperação com moradores locais e órgãos governamentais ou não.

Tudo o que é compartilhado no livro “Out of Poverty” é fruto de mais de três mil entrevistas com famílias em situação de pobreza. Sendo assim, escutou-se e aprendeu-se com tudo o que se relacionava ao contexto especifico de onde eles vivam e trabalhavam.

4.       Pense grande e aja grande

“Se você aprender sobre um problema real, por meio das pessoas que vivem o problema em seus contextos, fizer perguntas básicas e abrir os olhos para enxergar o óbvio, é bem provável que você surja com ideias com o potencial de mudar o mundo”. Claro, isso pode por um lado ser motivador, mas por outro também muito assustador. Polak divide sua experiência em conseguir enxergar em qualquer microiniciativa, o potencial global de mudança. E afirma que se acostumou com os “rótulos de grandiosidade” que andam junto com pensar grande.

Um pensamento que é comum aos empreendedores de negócios ou a grande empresas é o de procurar atingir grandes parcelas do mercado identificado como foco. Afinal, quando alguém está buscando investimento para um negócio, tenta convencer seu investidor que, se fosse possível, o potencial deste empreendimento é de atingir 50%, 60% ou outras porcentagens ainda maiores do mercado específico. Porém, este é um raciocínio pouco comum às organizações que atuam com desenvolvimento social.

É claro que pensar grande traz o risco de cair feio. Mas o autor comenta que se esta não é uma possibilidade considerada, talvez você deva procurar outra área de trabalho. Para fazer um mundo melhor, desenvolver ou inventar um conceito ou tecnologia é apenas o primeiro passo. O maior desafio é como encontrar um meio prático de colocar esta inovação nas mãos das milhões de pessoas ao redor do mundo que precisam.

5.       Pense como uma criança

Vindo de uma família de refugiados que escapou de ser dizimada pelo regime nazista na Tchecoslováquia, Paul Polak não romantiza a infância. “Mas há uma curiosidade simples e direta na infância e um amor por brincar que tendemos a perder na essência da nossa abordagem de solução de problemas quando adultos. Se você pensar como uma criança, você conseguirá rapidamente destrinchar um problema para seus elementos mais básicos”, afirma.

Enquanto estava tentando desenvolver estratégias para que seringueiros da Amazônia pudessem comercializar nozes secas como formar de incrementar suas rendas. Para além das ideias gigantescas e criativas, ele observou o uso dos fornos de farinha, presentes em quase todas as casas , e percebeu que os mesmos poderiam sofrer algumas adaptações e cumprir a tarefa.  “Se você pensa em como secar algo como uma criança, e não como um engenheiro, você pensa em como aquecer ou ventilar”, e a partir disso fizeram os primeiros fornos-piloto em menos de duas horas.

6.       Enxergue e faça o óbvio

Se não conseguimos ver nossos pontos-cegos, como conseguiremos enxergar e fazer o que é mais óbvio. O autor afirma que lhe demorou muitos anos para perceber esta máxima (e que muitos especialistas em erradicação da pobreza ainda não enxergam). Ele compartilha as experiências de sua organização, o International Development Enterprises (IDE) cujo foco é nos microfazendeiros. Alguns dados: 800 milhões de pessoas  que têm renda inferior a um dólar por dia extraem esse valor de “fazendas” com menos de 1 Acre, muitas vezes divididos em 4 ou 5 áreas de ¼ de acre. E 98% das fazendas da China, 96% em Bangladesh, 87% na Etiópia e 80% das fazendas na Índia têm menos de 5 acres de tamanho total.

Sendo assim, o IDE vem sendo capaz de ajudar mais de 17 milhões de pessoas por perceber que a criação de riqueza nestas fazendas depende diretamente da abertura e acesso a novas formas de irrigação, agricultura, mercados e design.

Bom, essa foi a primeira parte. Logo, logo vem a segunda!

 

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Enquanto esperamos…

Eu queria que a polícia invadisse as favelas de São Paulo. Ou que pelo menos o governo federal decidisse inundar as regiões mais pobres da cidade com água, conseqüência de uma outra obra qualquer de desenvolvimento questionável do país. Na verdade, eu só gostaria que nós, como sociedade, como vizinhos, como cidadãos, não deixássemos para cuidar de nossos problemas sociais somente quando eles se tornam cults o suficiente para serem discutidos. Ou quando eles invadem fisicamente o nosso cotidiano.

Que a política de “dor e sofrimento” do governo de São Paulo em relação à Cracolândia é uma aberração, é praticamente indiscutível (pelo menos sem uma maquiagem mais bacana do que “dor e sofrimento”). O que não tem sido levado muito em conta é que uma política com esse nome tem certa efetividade a partir do momento em que a “dor e sofrimento” atingem as camadas mais favorecidas dessa mesma cidade, obrigadas a lidar com a questão descentralizada, espalhada pela cidade, em “suas” ruas e calçadas, não mais presentes apenas naqueles locais já estereotipados e evitáveis: como o temido centro da cidade.

Não se pode mais andar pela cidade sem notar a presença dos antigos moradores da Cracolândia que, dessa vez, não foram apenas colocados em caminhões higienistas e isolados para uma região qualquer do interior do estado. Dessa vez, a população de São Paulo não vai mais poder apenas “saber da existência” de certas políticas questionáveis. Vai sentir na pele. E é um problema novo? Não. É uma política nova? Também não. Mas desta vez, não dá só para criticar via redes sociais, todo mundo quer acabar com esse sofrimento (fico na dúvida qual sofrimento, o dos usuários de crack vitimizados ou de uma classe média e alta obrigada a conviver com a realidade).

Imagine então que a mesma coisa aconteça com as favelas e assentamentos ilegais e temporários que existem por ai. Ao invés de desalojamentos e remoções acontecerem meio que na miúda, com todo mundo sabendo que eles acontecem, dessa vez os moradores expulsos da favela “A” iriam construir seus barracos de madeirite, panos e restos de outdoors no meio da Avenida Paulista, apoiados no belo vão do MASP, atrapalhando a vista do planalto. Não como forma de protesto, não para ocupar o espaço público de forma diferenciada ou coisa do gênero, mas pura e simplesmente para se realocar em um lugar qualquer. Em busca de minimização de dores e sofrimentos causados pela incompatibilidade de sua existência com o resto da cidade.

Quantos de nós iríamos às ruas, realizaríamos campanhas virtuais e nos mobilizaríamos se batessem à nossa porta avisando que a partir de agora o portão que nos protege do mundo exterior servirá de apoio para um barraco que foi despejado? Ou que no caminho entre as árvores do bairro residencial até o trabalho, antes momentos de prazer, agora habitam as mesmas estruturas precárias de habitação que se escondem por toda a cidade em aglomerações de famílias sob esgoto aberto, descaso e esquecimento? Alias, de que adianta falar em esgoto aberto se a classe média e a chamada elite desse país pouco conhece as sensações de se conviver com o cheiro de fezes constantemente à sua porta.

São esses os momentos em que descobrimos que o outro existe, que o que tememos não é um bloco sem vida. Não se fala em Cracolândia, mas em usuários de crack. Pessoas que como nós sangram quando agredidas, engravidam antes da hora ou de forma pouco planejada, sofrem dramas diários de toda ordem. E choram. Compartilham sua dor e sofrimento se assim lhes for dado espaço, se o contexto no qual estão inseridos lhes permitir ser vistos como uns, e não como apenas outro.

E que mal que tem se mobilizar quando um problema atinge a nossa porta? Nenhum. Vejo com bons olhos toda mobilização construtiva e questionadora. Só penso que poderíamos dedicar ainda mais tempo da nossa preciosa e escassa carga horária semanal para lidar com nossos problemas sociais antes que eles explodam.

Talvez, se finalmente fosse exposta, a realidade pela qual milhões de pessoas atualmente em situação de vulnerabilidade social e extrema pobreza passam dia após dia poderiam receber a atenção que merece. Por favor, não deixe a polícia invadir a favela. Nenhuma delas. Não é disso que estou falando. Mas também não deixe que a situação se mantenha da forma como está.  Abrir os olhos pode ser doloroso para nós, mas mantê-los fechados por muito tempo pode nos fazer esbarrar mais tarde em algo sem retorno.

 

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Ocupar as ruas para desocupar as favelas?

Sair às ruas. Dar a cara para bater por algo em que você acredita. E permanecer por lá até ser ouvido. Não tenho certeza na efetividade e poder de mudança que ações como essa de fato imprimem na realidade, mas posso garantir que é bonito de se ver. Não falo isso de maneira superficial, esteticamente. Quero dizer que a sensação ao ver mais de 300 barracas acampadas por dias na área mais nobre de Tel Aviv é, no mínimo, interessante.

A causa é relevante: os estudantes questionam o mercado imobiliário da cidade, implorando por políticas que os permitam alugar ou comprar apartamentos na cidade mais jovem de Israel. Mimados? Querem morar no lugar bacana e resolveram sentar emburrados e protestar? Pode ser. Mas saíram de suas casas, organizados, em busca de mudança na qualidade e igualdade da ocupação da cidade.

Como bem disse um dos protestantes, “dizem que nossas exigências não são claras o suficiente. Mas assim como um paciente que vai ao médico, sabendo da existência de um problema, mas não necessariamente ciente de sua solução, imploramos aos nossos líderes ajuda na solução do problema de moradia de Tel Aviv”. Soou interessante quando ouvi. Pareceu mais interessante ainda quando observei por dias a ocupação das barracas de acampamento na rua.

Pensei muito na nossa capacidade de mobilização, de parar tudo o que estamos fazendo para influenciar nossas lideranças (sejam elas quais forem) para que nos ajudem a solucionar problemas que ainda persistem ao nosso redor. Pensei na Avenida Paulista ocupada. Centenas, ou milhares de barracas colocadas no meio fio da avenida mais agitada de São Paulo, totalmente ocupada por pessoas em barracas e/ou barracos para chamar a atenção ao problema de moradia da cidade.

Cada grupo de barracas poderia representar uma favela, um cortiço ou um prédio abandonado à espera de um boom imobiliário na cidade, ocupado atualmente apenas pelo vilão da especulação imobiliária. Uma oportunidade de trazer para o centro da cidade – e para os olhos de todos – os problemas escondidos nas periferias e prédios vazios pela cidade.  Envolver jovens universitários, moradores de regiões centrais e periféricas, de baixa renda ou alto poder aquisitivo na ocupação das ruas principais da cidade, como forma de apresentar os sintomas aos nossos doutores (como se nós todos não soubéssemos).

Será que o problema de moradia nas favelas em São Paulo é um problema de dinheiro, infra-estrutura ou vontade política? Talvez ainda não saibamos, mas sinto que é hora de colocar a discussão na mesa de operação e dissecar as possíveis soluções. O quanto antes. É hora de “reduzir a epidemia por meio de uma campanha de vacinação coletiva”.

Assista uma matéria interessante sobre o assunto das moradias, produzido pelo CRECISP.

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Varanasi – De volta a Índia na pele de um Dalit

Durante o dia, milhares de indianos andam pelas ruas de Varanasi. Em pleno Shivaratri

Voltei à India. Nos últimos 4 dias, estive de passagem na cidade mais intensa do país, cujas memórias não conseguia expressar até este retorno. Infelizmente não fui de avião, mas por meio de um livro. Nas 320 páginas narradas como um diário, o escritor francês Marc Boulet se expõe a uma imersão jornalística na cidade de Varanasi. Na pele de um Dalit, a casta dos intocáveis.

Varanasi me marcou de diferentes maneiras. Senti-me encantando com a riqueza cultural e a intensidade da região. A cidade tem um propósito, religioso, e atrai tudo o que a India tem de mais curioso. Mas a cidade também me machucou. Feriu-me pois veio comprovar centenas de pensamentos inconclusos sobre o país, através de diversas demonstrações cotidianas e banais de que alguma coisa não estava indo bem por ali.

O sistema de castas não é visível. Pelo menos não a olho nu. Não é preto no branco como outras formas de racismo, não está relacionado necessariamente à classe econômica e tem pouca relação com o território ou qualquer tipo de fronteira. É uma questão de fé, de crença, de tradição. Mas é algo que o observador atento sente, e o indiano comum respira. E é apenas a base para uma série de outros comportamentos baseados nessa lógica.

Vestido de indiano, de rosto pintado, sujo e fluente em híndi, o escritor francês compartilha o diário de sua experiência com o leitor. Não é a primeira vez que ele faz um trabalho de imersão como esse (Marc Boulet já havia escrito um livro em que se passava por um chinês de etnia turca para desvendar um cartel de drogas em uma vila isolada), mas é a primeira em que sua reportagem é “prejudicada” pela realidade cruel a qual observa.

Em Varanasi estive com dois amigos, um homem e uma mulher. Vimos juntos o arder de infinitos corpos ininterruptamente às margens do Ganges, observamos juntos às famílias o derreter de carne, osso e história de algumas dezenas de pessoas que ali foram cremadas. Buscamos entender as razões por trás de cada uma das pequenas peculiaridades do espetáculo mórbido ao qual éramos expostos.  Nos desvencilhamos de pedintes de toda ordem, tentando compreender a necessidade de cada um deles, e tentando não ser explorados pelos aproveitadores.

Nas ruas estreitas por entre os Ghats*, centenas de vacas aglomeradas atrapalhavam a passagem e minavam as ruas com seu excremento. No hostel uma discussão intensa com um dos donos do lugar quase nos fez apanhar, e tudo por causa da falsa promessa de uma cama. A gritaria desnecessária e algumas acusações bastante desrespeitosas nos deixaram com certa tristeza em nossa estadia. Pulamos no rio Ganges, considerado um dos mais sujos do mundo, e tive a infelicidade de perder meus óculos durante o salto de nossa humilde embarcação à remo.

Cremação

Visitamos um Ashram cristão, onde serviam comida gratuita para estrangeiros e vivenciamos a liberdade alcoólica do alto de um prédio, distante da fiscalização religiosa que ouvimos e acreditamos existir. Para a viagem, nos programamos. A idéia era estar em Varanasi durante o festival de Shivaratri*. A cidade foi escolhida a dedo, já que sabíamos ser um dos melhores e mais religiosos lugares para se comemorar o casamento de Shiva com Parvatri.

O cronograma estava claro: a partir da meia-noite, os devotos iriam fazer uma caminhada de aproximadamente 22 km à beira do Ganges e o festival duraria até o dia seguinte. Claro, pensamos em algo como se celebra o ano novo no Brasil. Não podíamos estar mais errados.

Uma das tradições no Shivaratri é a oferenda de uma bebida chamada Bhang Lassi. A regra diz que aonde houver uma estátua de Shiva, seu tridente ou um templo, a bebida deve ser oferecida de graça a todos que passarem por ali. A bebida tem um fator entorpecente de alto impacto, já que é feita com THC. Porém, a bebida, e algumas outras drogas, são vendidas a preços simbólicos na loja do governo (não posso esquecer um rapaz na rua nos orientando a comprar drogas apenas da loja do governo, já que os que vendem na rua tentam extorquir as pessoas).

Nesse dia, a cidade inteira passeava entre as vielas como zumbis. Varanasi estava completamente lotada de peregrinos, que entre empurrões e comentários, aproveitavam a situação para tocar as mulheres que se arriscavam a caminhar junto com a multidão. Jantamos no alto de um prédio e nos preparamos para descer por volta das onze e meia da noite, e acompanhar de perto a peregrinação.

Ao descer, viramos a primeira rua à esquerda e chegamos rapidamente a uma longa escadaria de um dos ghats, de frente às margens do Ganges. Pela parte cimentada que beira o rio, assistimos boquiabertos uma legião de milhares de indianos caminharem na direção contrária a corrente do rio, porém muito mais fluídos que o rio sagrado e imundo. A cena era interessante, mas um pouco assustadora. Éramos visivelmente os únicos estrangeiros andando pelas ruas, mas resolvemos mesmo assim nos misturar.

Atravessamos o leito de pessoas e começamos a dançar junto à música que tocava no pedaço em que estávamos. De um minuto para o outro, a corrente de pessoas que antes fluía sem pausas, agora começa a inflar o lugar onde estávamos, como um cano entupido. Dezenas e talvez centenas de pessoas nos cercavam e dançavam conosco, as vezes fazendo piada de nós, as vezes tentando nos separar. Os olhares fixos e os sorrisos doentios estampavam a grande maioria dos rostos a nosso redor e percebemos um excesso de contato físico por parte da multidão (para colocar o tema do jeito mais polido que me permito).

Resolvemos sair dali. Quase que às pressas. Aquele momento contemplava, e resumia, um histórico de desrespeitos de gênero ao longo de toda minha estadia no país. Tristes, saímos daquela região e fomos em direção ao templo em que teoricamente haveria um ritual pela madrugada. Caminhando a esmo pelas ruelas escuras e vazias, fomos aos poucos percebendo que talvez carregávamos um pacote com informações questionáveis. Enfim, um senhor de muita idade e poucas roupas cobrindo o corpo nos orientou, de forma enfática, de que nosso lugar era de volta ao hotel, junto aos outros turistas.

Voltamos para casa. Trancamos a porta. Minha amiga ficou no hotel, meu amigo saiu comigo para uma caminhada pelos ghats, muito mais vazios agora. Andamos por algumas horas talvez, ao longo da madrugada, tentando entender um pouco do que vínhamos sendo expostos e reencontrar significado em alguns comportamentos comuns à India.

Imagino que não tenha ficado clara a conexão da minha história com a citação do livro Na Pele de um Dalit, de Marc Boulet. Infelizmente, para entender o que me motivou a escrever, ainda que não tenha expressado nada do que penso, vale a leitura do livro ou a visita à India. Pode ser na pele de um estrangeiro, de uma mulher, de um intocável.

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Publicado por em 21/06/2011 in India, pobreza, Relatos, Sem categoria

 

Brasil sem Miséria.

Depois do novo slogan do País, previamente comentado aqui em um post chamado País rico é país sem pobreza (?), o governo federal brasileiro lançou no dia 2 de junho de 2011 um novo pacote de ações para reduzir/terminar com a miséria no país. O novo programa de bem-estar social chama-se então Brasil sem Miséria e tem como alvo os extremamente pobres brasileiros. O que isso significa na prática?

Primeiro acredito que a reorganização das políticas públicas de combate à pobreza que já vem sendo realizadas em um novo plano integrado tem o objetivo claro de atrair atenção ao assunto. O que é louvável. Segundo, o programa propõe uma articulação mais intensa entre governos federais, estaduais e municipais. O que é fundamental. E claro, a proposta é também arrecadar investidores e justificar o uso de orçamentos públicos para este fim. O que, na minha opinião, é essencial.

O Brasil sem Miséria tem vídeo de lançamento muito atraente, com o Caio Blat e Maria Ribeiro, apresentando diferentes realidades do país – rural e urbano – e dados como 28 milhões de pessoas que saíram da condição de Pobreza e 36 milhões que entraram na classe média. Mais do que os dados, achei as imagens expostas interessantes, tendo em vista um olhar mais aproximado da favela e do meio rural (ao invés de somente aquelas imagens aéreas e despersonalizantes). A diferenciação entre estas duas realidades também é um fator importante do novo plano.

Assisto ao vídeo, leio o documento de lançamento oficial (álbum técnico) e exploro o site oficial do Brasil sem Miséria com bons olhos. Sinto falta apenas de alguns espaços do tipo “Participe”, “Envolva-se” ou “O que o cidadão pode fazer para o Plano”. É uma iniciativa extremamente inovadora, e me agrada muito saber que o direcionamento do governo atual tem sido cada vez mais claro em seus objetivos de reduzir/acabar com a pobreza no país. O que falta agora é envolvimento da sociedade civil em parceria com o Estado na garantia que todo essa mobilização será bem direcionada e relevante para a população.

No papel, o plano Brasil sem Miséria é elogiável. Na prática, é bastante trabalho a ser feito. Na minha opinião, possível. Mas para isso, temos que descobrir ainda um jeito de colocar todo mundo para trabalhar focado no objetivo de garantir melhores condições de vida no Brasil. Não adianta bater palma para uma iniciativa como essa e não se envolver de alguma forma. Para mim, a simples existência de uma secretaria chamada Secretaria Extraordinária de Superação da Extrema Pobreza (coordenadora das ações do Brasil sem Miséria) já é um grande avanço, mas o governo deve contar com o apoio e expertise da sociedade civil para esse fim.

Alguns textos interessantes sobre o assunto:

Do Empreender com Valores – Brasil sem Miséria e as Empresas: http://empreendercomvalores.org.br/hotsite/noticias.php?id=33

Texto interessante – e bem organizado – no blog Sul 21: http://sul21.com.br/jornal/2011/06/principal-programa-do-governo-dilma-promete-chegar-nos-extremamente-pobres/

Destaques do Blog do Planalto sobre o Plano Brasil sem Miséria: http://blog.planalto.gov.br/categoria/brasil-sem-miseria-destaques/

Ban Kin-Moon elogia o Plano (não tinha nem como não elogiar…): http://www.brasilsemmiseria.gov.br/noticia/ban-ki-moon-elogia-iniciativa-brasileira-de-erradicar-a-miseria/

Links:

www.brasilsemmiseria.gov.br

http://www.brasil.gov.br/sobre/cidadania/brasil-sem-miseria

http://www.mds.gov.br/

* Sempre lembrando que a referência de Extrema Pobreza para o Brasil sem Miséria é R$70,00 mensais per capita. 

 

Começo de despedida

Escrevo neste momento dividido entre sentimentos. Este é meu último final de semana na Índia e me preparo agora pra passar esses últimos dois dias em uma vila meio remota por aqui. (Achei que ia ser um jeito interessante de dar tchau para tudo isso). Aos que não sabem, eu fiquei por aqui um mês a mais do que o planejado, mas alguns meses a menos do desejado. Como tenho uma scholarship, é hora de dar início à segunda fase disso tudo, em Israel.

Nesses últimos meses por aqui posso garantir que tive experiências bastante intensas e desafiadoras em sentidos amplos, opostos e provocativos. Vim pra cá com uma quantidade considerável de objetivos e propostas na cabeça, mas o país aos poucos foi me mostrando como eu era ingênuo e não tinha ideia da proporção das coisas.

Estou organizando aos poucos as experiências e os comentários que gostaria de fazer sobre a Índia, não só das minhas viagens e impressões pessoais, mas também algumas coisas que mexeram comigo e representam temas mais amplos como religião, gênero, infra estrutura e desenvolvimento social. Acho que é fácil dividir a minha viagem sob dois olhares: (1) no quesito pessoal, em como me diverti, o quão rico de momentos divertidos, engraçados e malucos essa história toda de Índia me trouxe; e (2) num sentido profissional e de observação, o quanto este país me provoca, quanta coisa eu não entendo – e não vou entender – e como saio daqui de certa forma triste com o encaminhamento das questões sociais que assolam este país.

Nos últimos dias estive em Mumbai para visitar e pesquisar um pouco da desigualdade social estampada nessa cidade. Fui de trem de Dharavi – a maior favela da Ásia com aproximadamente 1 milhão de habitantes – à casa mais cara do mundo (U$ 1 bilhão de dólares, do dono da Relliance) em apenas 15 minutos. Mas tenho certeza que a distância entre estes dois mundos desiguais é muito maior Tudo isso para coletar material, bagagem e perguntas. Muitas perguntas.

Com o tempo, vou organizando o aprendizado, as vivências e, por que não, minhas críticas sobre tudo que vi, ouvi e senti por aqui. Por hora, compartilho dois vídeos não editados sobre esses dias em Mumbai. Ambos mexem com nossos sentimentos e nos intrigam a responder uma simples pergunta: como alguém pode morar nessas condições? E mais, olhando os dois vídeos, o que é Pobreza?

 
 
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